Astro Boy: um robô criança com uma história de gente grande

Ele tem um cabelo metálico com duas pontas que até parecem orelhinhas de raposa, solta raios pelas mãos, é superforte e tem turbinas de voo que saem dos pés – além de uma espécie de metralhadora embutida em outra parte do corpo, digamos, localizada mais na retaguarda. Mas, além dos poderes que o transformam em um grande herói, Tetsuan Atom – conhecido mundialmente como Astro Boy – foi a primeira série de mangá a ser transformada em um anime seriado regular no Japão e ainda trazia uma complexa história envolvendo um robô criado para substituir uma criança morta. E que, posteriormente, acaba sendo rejeitado pelo pai, um tema que seria retomado de maneira dramática por Steven Spielberg no blockbuster Inteligência Artificial, lançado em 2001 – quase meio século depois da estreia de Astro.

Astro Boy foi criado por Osamu Tezuka (1928-1989), autor extremamente prolífico e principal responsável por ter popularizado os quadrinhos e desenhos animados japoneses no ocidente. Não à toa, o criador de séries icônicas como A Princesa e o Cavaleiro e Kimba, o Leão Branco, é chamado de “pai do mangá moderno” ou mesmo “o deus do mangá.”

Tezuka criou Tetsuan Atom (o nome em japonês significa “Poderoso Átomo” ou “Átomo Braço de Ferro”) nos anos de 1950 como um mangá – publicado originalmente de 1952 a 1968. A história era instigante e com uma proposta bem diferente na época. No ano 2000, onde os seres humanos convivem com robôs inteligentes criados para servi-los, um célebre engenheiro de robótica e ministro da Ciência, Dr. Tenma, perde o jovem filho Tobio em um trágico acidente de carro.

Arrasado, ele decide criar um robô extremamente forte e inteligente, como nenhum outro até então (ele inclusive tem sentimentos), com as mesmas feições do menino. Dono de uma personalidade um tanto agressiva, Tenma dá ao robô o mesmo nome do filho, faz com que o chame de pai e inicialmente desenvolve uma relação afetiva com ele.

Inicialmente, a versão robô de Tóbio o satisfaz, mas aos poucos ele percebe que o robô não irá ocupar o lugar do falecido garoto de verdade. Até porque não irá crescer. Além disso, o autômato tem algumas atitudes e gostos que lembram o cientista que ele é um robô. A solução?  Descartar o garoto.

Tenma vende o robozinho para Hammeg, um sujeitinho cruel que tem um circo no qual obriga os robôs a se apresentarem em números perigosos – muitos deles acabam destruídos ou mutilados. É ele quem renomeia Tobio como Atom (ou Astro) para as apresentações. Tempos depois o novo ministro da Ciência, Doutor Ochanomizu (que em algumas versões traduzidas do mangá e do futuro anime foi chamado de dr. Elefun ou Elefante, talvez em referência ao avantajado nariz), assiste a uma apresentação de Astro Boy no circo e tenta tirá-lo das mãos de Hammeg, sem sucesso.

A situação muda quando um dos números inconsequentes de Hammeg causa um incêndio de grandes proporções no circo, prendendo várias pessoas que ficam prestes a morrer. Astro Boy salva a todos, inclusive Hammeg, e as ações de heroísmo dele inspiram o governo a decretar que a partir daquela data robôs também terão direito a viver com dignidade em vez de serem simples ferramentas.

A partir daí ele passa a morar com o professor e se torna uma espécie de super-herói que, mais do que enfrentar o crime e salvar pessoas, se defronta constantemente com vilões humanos que não aceitam a igualdade com os robôs, bem como robôs descontrolados que acabam colocando a vida dos humanos em risco – de maneira proposital ou não.

Entre esses últimos se destacam Pluto, um robô gigantesco que quer provar ser o mais forte do mundo e para fazer isso destrói qualquer outro que considere um desafio (apesar de surgir como vilão, ele acaba desenvolvendo respeito e amizade por Astro Boy), e Atlas, um androide perigoso que não aceita conviver com humanos.

Astro Boy, que às vezes recebe auxílio do detetive Higeoyaji, também acaba ganhando mais tarde uma família robô feita pelo Ministério da Ciência, que inclui uma irmãzinha chamada Uran (que muita gente chama de Astrogirl) e um “irmão mais velho”, Cobalt.

Esse último era um protótipo do próprio Astro feito por Tenma, que o manteve “estocado” em segredo. Por sinal, os conflitos e confrontos com Dr. Temna continuam durante as várias histórias que compuseram o mangá e que foram compiladas em 23 volumes após a publicação original. No Brasil, a editora JBC começou a publicar a obra completa em Astro Boy Big (cada volume tem de 424 a 456 páginas).

O anime que mudou o mundo

O grande sucesso do mangá fez com que em 1963, onze anos após o surgimento de Astro Boy nos quadrinhos, Osamu Tezuka o levasse para as telas como desenho animado, ou melhor dizendo, anime, como são chamadas as animações japonesas.

Feito pela Mushi Productions e considerado a primeira série animada da TV japonesa, Astro Boy – ainda em preto e branco – ganhou milhões de fãs e já de cara gerou uma série de brinquedos e produtos do personagem. Ao todo foram 193 episódios exibidos até 1966, dos quais 104 acabaram sendo exportados para outros países – incluindo Austrália e EUA. No Brasil o anime foi exibido ainda nos anos de 1960 na tela da Rede Globo e, no início dos anos de 1970, nas TVs Difusora e Record.

Em 1977, Tezuka quis fazer uma nova versão do desenho, desta vez colorida. Porém, a Mushi – que tinha os direitos da série – havia falido e o imbróglio jurídico impedia o mestre de concretizar o remake. A solução, de certa forma, foi se autocopiar e criar um novo desenho extremamente parecido com Astro Boy: Jettā Marusu (também conhecido como Jetter Mars ou, aqui no Brasil, Menino Biônico).

O personagem principal é Marte, um robô que, do ponto de vista visual, é quase idêntico a Astro Boy, mas traz uma letra  M no peito, além de usar capa de super-herói.  Ele foi criado por dois cientistas: Dr. Yama (Yamanoue, no original) construiu o corpo do robô, enquanto o professor Kawa (Kawashimo) se encarregou da mente.

Yama queria que Marte fosse um robô guerreiro, para fins militares, e o batizou em referência ao deus da guerra da mitologia romana. Já Kawa idealizou Marte para  fins pacíficos, implementando no cérebro do autômato uma natureza bondosa e mais infantil. O anime – que no Brasil foi exibido pela TV Record – confundiu muita gente, mas acabou bem mais rápido. Ao todo foram 27 episódios e o fim ocorreu porque Tezuka conseguiu retomar os direitos de Astro Boy e lançou o remake que queria.

Esta segunda versão de Astro Boy teve 52 episódios, levados ao ar de 1980 a 1981. Além de colorido, o anime tinha algumas mudanças sutis em relação ao original, mas se manteve fiel ao mangá. Entre as diferenças, alguns expectadores notaram um tom um pouco mais soturno em algumas cenas. Por outro lado, o dr. Tenma aparentemente tinha momentos de arrependimento por ter renegado o filho robô.

Em 2003, para comemorar os 40 anos do personagem, um novo remake de Astro Boy ganhou as telas japonesas. Desta vez foram 50 episódios com visual e animação mais modernos e de alta qualidade. Mas a mudança não foi só técnica: o enredo também teve mudanças significativas. Tenma é dado como desaparecido no início do anime e o dr. Ochanamizu descobre um robô parecido com o falecido filho do cientista, o reanima e batiza de Astro Boy.

O robô-criança tem grandes poderes, começa a agir como herói e só depois descobre que havia sido criado para substituir o filho morto de Tenma e acabou desligado. Além disso, dois outros personagens ganham destaque. O primeiro deles é o Cavaleiro Azul, que na série de 1963 havia aparecido em apenas dois episódios e neste remake se torna centro de boa parte da trama como um robô altivo que luta para libertar todos os robôs do jugo dos humanos.

O segundo é Acetileno Lamp, personagem criado por Tezuka em Lost World (1948) que havia sido introduzido no remake de 1980. Nesta nova série, porém, ele é o grande vilão, como um homem paranoico que quer destruir todos os autômatos. Para isso, ele consegue jogar os humanos contra o Cavaleiro e a nação independente que ele havia fundado na Antártida para que os autômatos pudessem viver em paz, a Robotania.

Além de superar a guerra que envolve quase todos os personagens do anime, este Astro Boy se vê envolvido em várias tentativas de Tenma de recuperá-lo como filho à força. O cientista chega a tentar dar fim a própria vida quando vê que Astro Boy não quer ter a memória apagada e se tornar filho dele de novo, porém desiste ao ser abraçado pelo robozinho. A série termina com Tenma na cadeia, para onde vai voluntariamente pagar pelos crimes cometidos, e Astro Boy vertendo uma lágrima, mostrando que é mais humano que muitos daqueles que nasceram como tal.

Astro Boy para crianças

Astro Boy foi estrela ainda de duas outras séries para crianças. A primeira, Little Astro Boy, foi voltada para meninos e meninas em idade pré-escolar, e tinha caráter educativo. Lançada em 2014, teve apenas oito episódios.

Em 2019 veio Go, Astro Boy, go!, com 52 episódios. Mais uma vez voltado para os pequenos, o anime mostra Astro Boy em aventuras pelo mundo, nas quais ajuda as pessoas a resolverem problemas.

Live action, cinema, streaming

Apesar de Astro Boy ter se popularizado graças aos animes, antes mesmo do primeiro deles a TV japonesa fez uma adaptação live action. Lançada em 1959, Mighty Atom teve 65 episódios e atingiu certa popularidade com o público japonês, mas não agradou o autor Osamu Tezuka.

Até pela falta de efeitos especiais à altura, o seriado televisivo deixava muito a desejar nos poderes do herói e dos próprios vilões que ele enfrentava.  Por isso mesmo na maior parte das vezes Astro Boy lutava contra bandidos comuns, o que desfigurou a proposta original.

Já para o cinema foram feitos animações do herói.  O primeiro foi Astro Boy Hero of Space, levado ao ar em 1964, que simplesmente uniu três episódios do anime na tela grande. O segundo, Astro Boy: Shinsen-gumi (1985) focou em um confronto do herói contra o Cavaleiro Azul. O terceiro foi Astro Boy: Mighty Atom – Visitor of 100,000 Light Years (2005), um curta metragem com o herói enfrentando Igza, um ser artificial que quer absorver os poderes dele e destruir a vida orgânica na Terra.

Por fim, em 2009 foi lançado uma animação produzida nos EUA em CGI, chamada simplesmente de Astro Boy. Sem levar em consideração uma série e elementos do mangá, a animação acabou sendo considerada muito genérica e superficial pela crítica, além de fracassar nas bilheterias.

Já em 2023 a Netflix lançou a animação Pluto, spin off de Astro Boy baseado no arco (do mangá) “O Maior Robô da Terra”. Com oito capítulos, a série se passa no universo de Astro Boy e tem vários personagens do mangá, entre os quais o próprio herói, o dr. Tenma e, claro, o robô Pluto. O foco, porém,é uma investigação conduzida pelo detetive  Gesicht, que quer descobrir quem está matando  os mais poderosos androides da Terra.

Mega Man!

Apesar de haverem diversos games de Astro Boy, o mais conhecido deles não é protagonizado pelo personagem…

Explica-se: a produtora Capcom estava prestes a fazer um jogo protagonizado pelo personagem, mas acabou não conseguindo manter os direitos para lançar o game. Então, inspirada em Astro, lançou em 1987 um título estrelado por um herói inspirado nele: Mega Man.

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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