Em 1953, nas páginas da revista Shojo Club, um intrépido príncipe chamado Safiri enfrentava malfeitores no reino da Terra de Prata enquanto o maquiavélico Duque (de) Duralumínio, um primo do rei, arquitetava planos para tomar o poder dos pais do jovem monarca e coroar o próprio filho, o insosso Plástico. Os leitores do mangá descobririam logo nas primeiras páginas, porém, que o príncipe era na verdade uma princesa, fato que era escondido porque as leis do reino impediam a sucessão de uma menina.
Para complicar ainda mais, os fãs de A Princesa e o Cavaleiro, nome da HQ criada por Osamu Tekusa (conhecido como o “Walt Disney japonês” devido ao sucesso mundial de suas criações, que incluem entre outros Astro Boy e Kimba, o Leão Branco), descobririam ainda que a garota tinha dois corações. Graças às traquinagens de um anjinho arteiro, Ching, ela tinha um rosa, de menina, e um azul, de menino…

A série, cujo nome original é Ribbon No Kishi (a tradução aproximada é “Cavaleiro de Laço”), fez um tremendo sucesso e impulsionou as vendas da revista, na qual foi publicada até 1956. Depois, ganharia ainda uma continuação por outra publicação voltada para meninas, a revista Nakayoshi, de 1958 a 1959, e uma republicação revisada pela mesma revista, de 1963 a 1966.
A grande virada, porém, viria em 1967, quando a Mushi Productions – do próprio Tezuka – resolveu transformar o mangá em desenho animado. Assim surgiu o anime que se tornou um grande sucesso no Japão e no ocidente, em especial nos Estados Unidos (onde se chamava Princess Knight) e no Brasil. Por aqui, onde foi exibido na década de 1970, os 52 episódios foram ao ar inicialmente na Rede Record (São Paulo) e na TV Tupi (Rio de Janeiro).

A história se passa em um reino fictício da Europa medieval, chamado de Terra de Prata. A paz reina sob o comando de um monarca justo, contudo os problemas começam quando o rei e a rainha têm uma filha em vez de um filho. Segundo as leis locais um menino deve nascer para se tornar rei e, com o nascimento da princesa, o malvado primo do rei, o Duque Duralumínio, pode tomar o poder para o filho dele, Plástico.
Aqui cabe uma observação: Tezuka nomeou boa parte dos vilões do reinado com nomes de ligas metálicas “menos nobres” e materiais sintéticos, enquanto integrantes do lado do bem e os próprios reinos alinhados a eles ganharam nomes de pedras preciosas e metais valiosos.

Para evitar o golpe do primo, o rei anuncia publicamente que Safiri é um menino. A princesa cresce sempre escondendo que é uma menina e se torna uma hábil cavaleira e espadachim. Além de combater vilanias e injustiças com a ajuda do cavalo Opal (e de aprontar algumas travessuras também), ela vive se livrando das armadilhas do Duque e do assistente dele, o narigudo Nylon.
Mas quando faz 12 anos, é encontrada por um anjinho chamado Ching, que havia sido expulso do céu pelas muitas travessuras que aprontou. Entre elas, uma em especial: quando ainda estava no paraíso, Ching deu a Safiri um coração azul, de menino, sem saber que ela já tinha recebido um coração de menina.

Expulso, Ching há tempos procurava pela princesa e agora quer treiná-la para ser mais feminina, bem como levar o coração errado de volta. Porém, comovido pela situação de Safiri, o anjinho resolve protelar sua missão para ajudá-la.

A partir daí começam mesmo as aventuras, nas quais o Duque Duralumínio faz de tudo para desmascarar Safiri. Surgem ainda outros vilões, entre os quais o próprio Satã que, ao saber que o “príncipe” também tem um coração de menina, tenciona roubá-lo para dar à sua filha Heckett, uma demoniazinha sem coração.

Para complicar mais as coisas, durante uma festa Safiri acaba conhecendo o príncipe Franz, da Terra do Ouro, e se apaixona por ele. Após viverem juntos várias aventuras (algumas das quais a princesa “se disfarça” de garota usando uma peruca loira para ludibriar quem a vê), Franz acaba descobrindo que Safiri é uma menina. Infelizmente, o Duque Duralumínio também.

Com isso, eventualmente o vilão assume o comando do reino, mandando Safiri e a mãe para uma torre distante. Aí a história fica ainda melhor: mesmo sob constante vigilância, Safiri consegue sair da Torre várias vezes para tentar desfazer as maldades do Duque, disfarçada com uma máscara e usando o nome de “Cavaleiro Vingador”.

Em um determinado momento, porém, chegam mais vilões, que formam a “Unidade X”, e começam a destruir mesmo o reino. Duralumínio é enganado e morto por Nylon, com a ajuda do temível “Homem de Ferro”, e as coisas estão cada vez piores.
Em uma busca desesperada para salvar o reino, Safiri acaba perdendo os pais, que são dados como mortos após serem jogados ao mar. Ching, contudo, consegue avisar Franz do destino de Safiri e os dois descobrem que um artefato mágico que poderá dar cabo do temível Homem de Ferro: um machado místico forjado com metal dos lendários Sinos da Justiça.

No final da série, Safiri enfrenta e mata o vilão, e de quebra ainda vê os pais serem ressuscitados por uma intervenção divina. Ching “morre” e volta para o céu. Safiri se casa com Franz, os reinos são unificados e o coração azul é retirado, afinal Safiri e Franz se tornaram rainha e rei de ambos os reinos e não há mais razão para esconder que ela é menina…

Quem quiser assistir aos desenhos encontra a série completa, com dublagem original, em alguns canais de youtube. Vale lembrar que no Brasil a versão em mangá foi lançada pela editora JBC nos anos 2000.
E também já foi publicada por aqui – em 2018 – aquela continuação da série original que saiu no Japão de 1958 a 1959, pela editora New Pop: Os filhos de Safiri: o novo a Princesa e o Cavaleiro.

Esta saga, também escrita e desenhada por Tezuka, se passa após o casamento de Safiri e Franz. Ela deu à luz um casal de gêmeos: o príncipe Daisy e a princesa Violetta. Porém o malvado duque Daria sequestra o príncipe e o abandona na floresta (onde, sem que ninguém saiba, ele é adotado por uma corça que se transforma em humana durante a noite). Violetta, por sua vez, acaba se passando pelo príncipe para manter o segredo do desaparecimento dele.
Cabe ressaltar ainda que, além da afeição de leitores e espectadores de todo o planeta, para muitos estudiosos de mangá e anime A Princesa e o Cavaleiro foi um marco que mudou o mundo dos shojos (ou shoujos, como são chamadas as histórias em quadrinhos japonesas feitas para meninas).Isso porque a obra foi a primeira a trazer efetivamente uma heroína feminina, que enfrentava de frente – e muitas vezes armada – os problemas que apareciam.

Até então, as histórias traziam personagens “mais doces” e que inspiravam as leitoras a serem “refinadas” e a aspirar o romance, o casamento e a maternidade. “Ao forçar (Safiri) a esconder sua natureza feminina e seu amor por um belo príncipe encantado, Tezuka criou um refinado universo de ambiguidade. Ele parece ter compreendido a identificação que muitas meninas devem ter sentido com essa princesa que se passava por um jovem audacioso. Porém, no final de seu conto de fadas, Tezuka fez com que a alma masculina dela fosse removida e assim, ‘totalmente mulher’, ela pode se casar com seu príncipe e viver feliz para sempre. Sua princesa não era nenhuma rebelde feminista, mas foi um ponto de partida para as garotas mágicas e as ambiguidades sexuais que se tornariam características do mangá shojo”, diz o jornalista Paul Gravett no livro Mangá – como o Japão reinventou os quadrinhos.




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