Petricor: mais que uma HQ de fantasia, uma alegoria sobre o amor entre irmãos, perda e crescimento

Quem acompanha o trabalho do quadrinista Jack Azulita pelo Instagram sabe que criaturas demoníacas, fantasia, terror (e gatinhos) são marca registrada na obra dele. Sem surpresas, então, Petricor – Graphic Novel do autor lançada pela Devir neste mês de setembro – tem tudo isso. A história protagonizada pela adolescente Sarah, porém, vai além da típica aventura em um mundo de fantasia gótica. Com traço marcante e um roteiro inteligente, Azulita conduz o leitor por uma história cheia de camadas e alegorias a respeito do amor entre irmãos, perda e crescimento.

A grande sacada do quadrinista é trazer na história narrativas inicialmente  paralelas, mas que se misturam de maneira competente. Assim, a HQ começa com Sarah correndo, tropeçando e caindo nas águas de uma represa, que a levam para um mundo estranho onde acaba literalmente perseguindo a própria sombra.

Porém, ao contrário de Peter Pan, ela não consegue recuperá-la e costurá-la ao corpo. Em vez disso, uma criatura monstruosa é quem fica com a sombra de Sarah, que recebe um conselho inusitado e acaba se vendo frente a frente com outro tipo de monstro (um “bradador”) que parece querer devorá-la.

De maneira hábil, neste ponto Azulita corta a história para Sarah reclamando que não consegue passar em uma fase de videogame. Então era isso o que estava ocorrendo? Era um videogame? Ou não? A falta de clareza é proposital e faz com que o leitor se interesse mais ainda em saber o que está acontecendo.

Mas antes disso, entra na história Samuel, o irmão mais velho da adolescente, com quem ela tem uma relação de muito amor e explosões de raiva. Samuca, que anda escondendo algo da irmã, a diverte na mesma medida em que a enerva. Nada mais natural, afinal, eles são irmãos e adolescentes.

A partir daí a história irá se alternar entre os dois mundos, o que por sinal fica bem evidenciado nas diferentes paletas de cores utilizadas pelo cartunista em cada um deles. No de fantasia, vale destacar a presença de outros personagens fantásticos como o sapo Carpaccio – que se veste de terno e é ressentido pelo pai não o diferenciar das centenas de irmãos – e o gigantesco e silencioso gato Normas.

Já no real, a relação entre Sarah e Samuel é deliciosamente agridoce e desde sempre deixa no ar, de maneira palpável, a percepção de que algo não vai dar certo. Ao fim, os dois mundos se unem de maneira surpreendente.

Aliás, Petricor é uma daquelas histórias em que, depois de chegar na última página e saber tudo o que realmente aconteceu, vale a pena voltar à primeira página e reler tudo com atenção, prestando atenção a frases e personagens que com certeza irão ganhar outro significado. Como bem cabe, aliás, a uma (boa) alegoria.

Em tempo, também vale a pena prestar atenção ao significado do nome “Petricor”, escolhido a dedo por Azulita. Muita gente acha inicialmente que ele se refere à criatura mítica, o ladrão de sombras, talvez fazendo uma conexão inconsciente com “manticore” , a lendária e temerosa mantícora da mitologia grega.

Mas não, a palavra tem outro significado e, se você desconhece, não o procure antes de ler a HQ. Apenas saiba que ele é explicado e ao final se encaixa como uma luva na essência da história.

A edição brasileira da Graphic Novel tem 128 páginas coloridas em papel couchê, capa cartão, e está sendo comercializada por cerca de R$ 70,00.  A obra é a primeira do selo Supernova, da Devir.

Ainda falando sobre criaturas fantásticas e alegorias, vale lembra que Jack Azulita é o desenhista de Gezebel, HQ também lançada neste ano na qual a personagem principal – Géssica – terá de enfrentar os próprios demônios. De maneira tanto abstrata quanto literal. E, conforme revelou ao MundoHQ, o autor ainda deverá lançar neste ano um terceiro trabalho, reunindo em um impresso histórias que saíram na Internet.

NOTA DO CRÍTICO: Esse é bom

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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