Brasileira Cláudia Carezzato faz exposição de aquarelas na Romênia retratando grandes nomes da cultura do país europeu

Mulher nascida em São Paulo, se tornou médica em Campinas, onde morou por mais de quatro décadas até se mudar para Vitória, no estado do Espírito Santo, irá para a Romênia, expor aquarelas retratando escritores e poetas romenos, em uma biblioteca da cidade de Ploieşti, capital do distrito de Prahova. Leia esta frase no ritmo certo e ela irá se encaixar perfeitamente em Disneylândia, um clássico dos Titãs. Mas música e globalismo à parte, ela descreve concisamente a trajetória artística de Claudia Carezzato.

Médica sanitarista de formação, ela tomou gosto pelas tintas há aproximadamente oito anos e, desde então, vem se destacando cada vez mais no mundo das aquarelas, em especial em retratos. O reconhecimento na área – teve trabalhos expostos nos Salões de Humor de Caratinga e Piracicaba, e na Galeria do Rock de São Paulo – fez aparecer um convite inusitado: fazer uma exposição solo, a primeira da carreira de Claudia, na cidade de Ploieşti, na Romênia.

“Eu havia participado de uma exposição na Romênia anteriormente, na qual fiz quatro retratos de escritoras locais, especialmente para o evento. Aí, quando me enviou o diploma de participação, o (curador) Nicolae Ionita disse que gostaria que eu fizesse uma exposição cultural só com retratos de escritores, poetas e dramaturgos da Romênia. Aceitei o convite e ele começou a me mandar imagens dessas pessoas, e eu ia fazendo as aquarelas. Ao todo serão 46”, diz Claudia, que deve viajar para o país europeu ao lado do cartunista Bira Dantas, com quem é casada, às vésperas da abertura, em 16 de setembro.

“Nicolae disse que podia mandar as telas pelo correio, mas o Bira sugeriu irmos pessoalmente para fazer a montagem e participar da abertura”, acrescenta.

Cárcamo

Gonzalo Ivar Cárcamo Luna, artista chileno radicado em São Paulo, foi o grande inspirador – e professor – de Claudia Carezzato. “Eu nunca soube desenhar, era horrível, só conseguia copiando e nem  copiar direito conseguia. Mas ficava encantada com as aquarelas do Cárcamo, tinha um sonho de fazer paisagens como as dele”, conta.

A busca pelo sonho, porém, demorou a ocorrer. Claudia se mudou de São Paulo para Campinas em 1976, quando foi cursar Medicina na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), curiosamente o mesmo ano em que o artista chileno veio para o Brasil. Formada, seguiu carreira como sanitarista e médica de família. “Minha vida inteira foi dedicada à atenção primária, como médica de centro de saúde. Sou uma pessoa de esquerda e via na medicina, na atenção primária, um jeito de trabalhar a cidadania, mostrando para as pessoas o direito que elas têm ao respeito, ao cuidado”, conta.

Foi só em 2017 que a vontade de pintar ressurgiu com força total. “Soube de um workshop que o Cárcamo ia fazer em São Paulo e me inscrevi. Ficamos sábado e domingo no estúdio dele, uma imersão completa. Ele disse que eu não precisava saber desenhar para estar ali, me ensinou como enxergar sombras e luzes, várias técnicas e  falou sobre a importância dos materiais, um bom papel, bom pincel, de trabalhar com aquarela boa… Na segunda-feira após o workshop comprei o material e comecei a pintar”, relembra.

Um fato engraçado é que a nova artista acabou não seguindo para o caminho das paisagens. “Nunca pintei aquelas coisas que achava legal e me atraíram inicialmente para a aquarela. Comecei a fazer retratos de pessoas que eu achava interessantes ou cenas que me chamavam a atenção, como a de garotos jogando futebol ou dando gargalhadas, duas das minhas telas favoritas. E nisso comecei a gostar muito de fazer retrato, seja de rostos desconhecidos ou que me atraiam, ou de pessoas e artistas que gosto muito, que digam alguma coisa para mim”, pontua.

 

Neste sentido ela destaca, além dos garotos anônimos, os que fez de uma senhora japonesa e de um garotinho indígena, além dos de personalidades como o do ex-presidente uruguaio Pepe Mojica, falecido em maio deste ano (Claudia retratou o político tanto sozinho quanto com o presidente brasileiro Lula); o de Karl Marx e o do cronista Luís Fernando Veríssimo.

“Infelizmente, tenho feito meio que um obituário, porque tem muita gente boa morrendo ultimamente. Então, quando alguém de destaque se vai, o Bira faz a caricatura e eu, o retrato. Esse do Veríssimo eu realmente gostei muito de ter feito”, diz Claudia, que entre as obras homenageando pessoas que recentemente se foram tem também um belo retrato do cartunista Jaguar.

Claudia calcula que, desde que começou a pintar até agora, já tenha feito mais de 100 aquarelas – boa parte delas reproduzida no Instagram da autora.

Capricorniana dedicada

Questionada sobre qual a diferença entre a arte e a medicina para ela, Claudia diz que não sabe definir. “Sou capricorniana, tudo o que eu faço é nesse jeito capricorniano. Vou fazendo com empenho, prazer, seriedade, carinho…e na medicina era do mesmo jeito. Então não sei falar qual a diferença”, pontua.

Quanto ao tempo que dedica às aquarelas, Claudia revela que ele é grande – no caso da mostra para a Romênia, por exemplo, ela foi recebendo as imagens e produzindo as telas de maneira contínua, praticamente sem parar até concluir as quase 50 obras. Contudo, os intervalos entre os períodos de pintura variam.

“Hoje em dia sou aposentada pelo SUS e trabalho pouco com medicina. Ainda sou supervisora de onze médicos do Programa Mais Médicos, mas tenho um tempo livre muito grande se comparado a quando trabalhava de segunda à sexta, das 7 às 18 horas. Porém não tenho regra, às vezes passo muito tempo sem pegar no pincel e quando pego faço três, quatro, cinco telas de uma vez. Aí me afasto um tempo, me dá vontade de pintar de novo e faço mais um monte”, brinca.

A exposição na Biblioteca Judeteana Ion Luca Caragiale, em Ploiesti, será aberta ao público às 11 horas da manhã de 16 de setembro e tem na organização a União de Jornalistas Profissionais da Romênia, o Conselho do Condado de Prahova, a Prefeitura Municipal de Ploiesti, a Biblioteca de Prahova e a Casa de Cultura Ploie Casati. No mesmo dia, após a abertura, haverá um debate sobre Liberdade de Expressão na Imprensa Brasileira, do qual participarão Claudia, o cartunista Bira Dantas e a artista plástica Thais Araújo – com moderação do jornalista Claudius Dociu.

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

1 comentário

  • Cláudia Carezzato é assim mesmo, dedicada a tudo que faz, além da medicina e das aquarelas, cozinha muito bem. É amiga é leal, gentil e generosa. E agora se revelando nas artes. Boa sorte na exposição.

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