Extremity: uma HQ de fantasia que mostra a realidade cruel gerada pelo ódio e a raiva das guerras

Levado ao extremo, o ditado olho por olho, dente por dente, acaba gerando uma terra povoada por cegos desdentados. Extremity, história em quadrinhos de Daniel Warren Johnson que está sendo lançada no Brasil em edição de luxo pela Devir, é uma história exemplar neste sentido. Situada em um mundo de fantasia ao estilo do quadrinista francês Moebius, a HQ mostra como a raiva e o ódio crescente entre envolvidos em uma guerra só faz com que o conflito cresça e gere mais raiva e ódio. E mortos, muitos mortos.

O roteiro de Johnson, que com a obra foi indicado ao Prêmio Eisner de Melhor Minissérie em 2018, se desenvolve ao redor de uma família que comanda o clã dos Rotto, um povo que vive em conflito com o reino de Paznina. A história começa quando um exército do reino invade o castelo do clã, mata a mãe do chefe local, o gigantesco Jerome, e decepa a mão da filha dele, Thea.

A partir daí Jerome comanda os filhos – além de Thea, completa a família o jovem Rollo – em uma missão de vingança sangrenta contra os comandados da rainha Nim.

Porém, em um dos ataques contra um batalhão de Paznina, acaba sendo revelado que a rainha matou a esposa do chefe dos Rotto para se vingar de uma atrocidade cometida contra a filha dela, que acabou tendo o rosto desfigurado em uma disputa de fronteira entre os dois povos.

E, quando mais a história prossegue, mais se vê um círculo sem fim de agressões. Sempre existiu um ataque ou uma morte anterior que gerou a vingança, que por sua vez deixará mais corpos pelo caminho e ensejará uma nova vendeta

O ódio corrompe

Antes de se tornar um líder sanguinário e violento, que só quer saber de matar para vingar a esposa, Jerome era um bom homem. Thea, que segue o pai executando e mutilando inimigos com frieza, era uma artista – inclusive assim designada pela “sacerdotiza” local, Deidre. Rollo, o irmão mais sensível e tecnológico, se recusa a derramar sangue inimigo, o que eventualmente acaba até mesmo fazendo com que o pai lhe chame de traidor da causa.

Assim, Daniel Johnson vai mostrando, página a página, como o ódio corrompe a alma das pessoas e como esse é um processo difícil de interromper ou reverter. Um terceiro grupo irá surgir tentando atuar neste sentido e os próprios Thea e Rollo terão uma participação fundamental para isso. Mas que o leitor não espere um final feliz, afinal, tanto na fantasia quanto na realidade em guerras não existem finais felizes nem vencedores: todos perdem, ainda que eventualmente uns menos que outros.

Um mundo fantástico

Se o autor de Extremity manda bem no roteiro, nos desenhos ele é ainda mais feliz. O traço de Johnson, ainda que não seja extremamente complexo, valoriza muito o mundo o fantástico onde se passa a história, que mistura cenários insólitos, monstros, veículos e equipamentos de alta tecnologia e armas e armaduras medievais.

As cores de Mike Spicer dão ainda mais destaque à ilustração, em especial nas cenas com monstros e cenários mais amplos, e nas (muitas) de violência gráfica -a HQ não chega a ser um The Boys em termos de sangue e vísceras, mas chega bem perto.

Vale ressaltar ainda o capricho no desenvolvimento da cultura e hábitos locais da população local, com direito a misticismos e a identificação por meio de pintura facial de cada tribo- no caso dos Rottos, ainda mais quando Jerome aparece com uma espada um pouco maior, é impossível nãos e lembrar de Krato, do(s) game(s) God of War.

De fato, é possível encontrar referências das mais diversas na HQ, mas uma delas chama a atenção para além da cultura pop. Jerome é chamado pelos seguidores como Abba, a palavra hebraica para “pai”. E um certo guerreiro robô que aparecerá na história, uma arma mortal que cansou de matar e irá até certo ponto ajudar o irmão mais novo Rocco, se chama Shiloh.

Essa é outra palavra hebraica, com significados que podem ser interpretados como “pacificador” ou “tranquilidade e justiça”. E, mais, alguns estudiosos apontam que a palavra poderia se referir a uma figura profética que traria unidade e paz… aos israelitas. Seria então a guerra interminável movida por ódio que se renova e vinganças sem fim da HQ uma referência aos conflitos entre Israel e Palestina? Cabe a quem lê decidir.

Edição de luxo

Nos EUA, onde foi lançada em 12 capítulos divididos em dois volumes (Artista e Guerreiro), Extremity foi a HQ que consolidou Daniel Warren Johnson como um dos nomes mais importantes da nova geração de quadrinistas dos Estados Unidos. A edição brasileira é baseada na Extremity Deluxe Edition. Lançada nos EUA há poucos meses, ela traz minissérie completa mais extras, com 312 páginas e  preço de R$ 125,00 (diversos sites estão comercializando a obra com desconto de pré-venda).

Extremity foi o primeiro trabalho de Daniel Warren Johnson indicado a um Prêmio Eisner (em 2018), mas o autor obteve nos anos seguintes outras indicações e conquistou a honraria em 2023 com Powerbomb! Faça uma Superbomba (Melhor Minissérie e Melhor Publicação para Adolescentes) e em  2024 por Transformers (Melhor Série e Melhor Roteirista).

No Brasil, Johnson é conhecido no Brasil pelas graphic novels Bill Raio Beta; Mulher-Maravilha: Terra Morta, pela própria Powerbomb! Faça uma Superbomba; e por Murder Falcon: o Falcão Matador. Atualmente, o autor segue escrevendo a HQ dos Transformers bem como o título The Moon is Following Us.

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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