Como SE treinar para ser um dragão: conheça Ruri Dragon, mangá sobre adolescente que descobre ser filha de uma dessas criaturas mitológicas

Graças à popularidade de Game of Thrones, que reinou absoluto de 2011 a 2019, pergunte a uma pessoa ligada na cultura pop sobre uma menina com sangue de dragão e provavelmente ela pensará em Daenarys Targaryen, primeira de seu nome, khaleesi dos Dothraki, nascida da tormenta, mãe de dragões, quebradora de correntes, rainha dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens….ufa. Mas repita a pergunta no Japão ou para um aficionado de mangás e a resposta será diferente (e bem mais curta): Ruri Dragon.

A vida de uma menina que um belo dia descobre um par de chifres na cabeça – no sentido literal, é bom reforçar – e que é filha de um dragão e de uma humana, se tornou uma das histórias em quadrinhos mais badaladas dos últimos anos (além de forte candidata a se tornar um anime em breve). E ganhou neste ano uma edição brasileira pela Panini. A editora acaba de iniciar a pré-venda do primeiro dos três volumes/coletâneas já lançadas da obra. Com 176 páginas, o número 1 deverá estar disponível (e entregue a quem comprar antes) na segunda quinzena de setembro.

Lançada incialmente como uma história única (oneshot) em dezembro de 2020 na edição Giga da revista japonesa Shonen Jump, Ruri Dragon chamou a atenção dos leitores e, dois anos depois, o autor Masaoki Shindo retomou a HQ em formato de série.

Em virtude de problemas de saúde de Shindo, houve hiatos grandes entre alguns capítulos, o que não diminuiu o entusiasmo dos fãs – e nem as vendas recordes. Até o momento, os 24 capítulos já lançados em formato impresso foram reunidos em três coletâneas: Doragon Nandatte (algo como “na verdade um dragão”, de 2022); Nakaii Hitsuyō Nain da yo (“Não precisamos ser melhores amigas”, de 2024); e Kimoi ne (“Meio nojento”, de 2025). A Panini promete lançar todas por aqui.

Há ainda outros dez capítulos lançados exclusivamente em formato digital na plataforma da Shonen e que devem ganhar versão impressa em breve no Japão. Lembrando que a história não terminou, o autor ainda está escrevendo e desenhando a obra.

Sem heróis nem vilões

A história de Ruri Dragon chama a atenção porque não é sobre batalhas épicas entre o bem e o mal, lutas violentas de espadas gigantes contra monstros que querem destruir a metrópole, nada disso. Por incrível que pareça, ela retrata a vida cotidiana, em especial o dia a dia de adolescentes em uma escola, com o detalhe que uma entre eles passa por mudanças que vão além das típicas da puberdade.

Tudo começa quando a garota Ruri, como faz normalmente logo que acorda, vai escovar os dentes e, ao olhar casualmente no espelho, descobre que agora tem dois chifres na cabeça. Achando aquilo  estranho (ah, vá?), Ruri os mostra para a mãe que reage de maneira extremamente descontraída dizendo que as protuberâncias devem ter aparecido durante a noite porque a menina “provavelmente puxou aquilo do pai”, que não é um ser humano e, sim, um dragão.

Aqui entra um detalhe curioso do mangá: o autor Masaoki Shindo é um mestre em misturar o normal com o anormal, fazendo com que os personagens tenham reações totalmente casuais a fatos extraordinários e tocando a vida em frente.  Assim, a mãe não dá mais detalhes sobre o pai, diz que depois as duas conversam e sai para o trabalho. Ruri, por sua vez, decide ir para a escola.

Os chifres chamam a atenção dos colegas de Ruri, que meio que se torna uma celebridade na escola, com gente querendo tocá-los e pedindo para fazer selfies com ela, o que não agrada a menina que é um pouco antissocial, mas basicamente é isso. Um professor inclusive pergunta se “além dos chifres” ela está bem e, como a resposta é positiva, o mestre decide seguir a aula e pronto.

É claro que, na medida em que mais características de dragão vão aparecendo, surgem problemas. O que seria um espirro, por exemplo, se transforma em um jato de chamas que queima um livro e chamusca colegas de sala. E que na primeira vez machuca bastante a garganta de Ruri e o rosto dela.

Mas a reação da maioria dos colegas – em especial de Yuka, melhor amiga e porto seguro emocional da menina-dragão – é de tentar apoiar a garota, sem deixar de lado algumas doses esparsas e bem distribuídas de curiosidade, um pouco de temor e entusiasmo.

Claro, nem tudo são flores, sempre há uma ou outra reação de inveja/preconceito ou uma gozação eventual de um colega aqui ou ali. Mas nada que vá além de gerar um dramazinho básico do cotidiano a ser enfrentado. E só.

Futuramente, um professor e um grupo de colegas até vai ajuda-la de maneira mais científica a descobrir e controlar outros poderes que irão se manifestar. Aparentemente, dragões também soltam energia elétrica do corpo, saram rapidamente, conseguem congelar/gerar gelo e até mesmo cuspir veneno (este último item não é muito popular…).

E o que Ruri irá fazer com todos estes e outros poderes? Se fosse um típico personagem ocidental (e boa parte dos orientais também, sejamos justos), ela provavelmente iria ajudar a salvar vidas, colocaria um uniforme colante e sairia por aí praticando atos de heroísmo. Mas no caso de Ruri, o que ela quer mesmo é sobreviver à adolescência e ter uma vida o mais comum possível.

Eis aí o segredo do sucesso de Ruri Dragon: não se trata de um gibi de super-herói, mas sim de uma história sobre aceitação e dilemas sociais. E, claro, assim como a proposta original dos X-Men, de uma metáfora sobre mudanças na adolescência, sobre ser ou se sentir diferente, um sentimento com o qual a maioria absoluta dos adolescentes (e inúmeros adultos) se identifica.

Há ainda dois outros pontos que conquistaram o público. O primeiro é que o jeito de falar dos personagens também é bastante normal, cotidiano, por assim dizer. Nada de jargões, punchlines ou frases de impacto cuidadosamente elaboradas. “Me esforço para que todos os diálogos soem naturais e não-roteirizados. A ideia é que todas as interações entre os personagens sejam próximas da realidade no jeito de falar”, diz Masaoki Shindo.

Além disso, ainda que cada nova descoberta/poder de Ruri traga boas surpresas e desenvolvimentos interessantes no cotidiano da garota, não há grandes reviravoltas ou revelações bombásticas na história. À exceção do fato de que Ruri é meio-dragão, o entorno dela corresponde ao mundo real.

 

Quando Ruri começa a ficar muito nervosa ou ansiosa com tudo o que está acontecendo com ela, por exemplo, não surge do nada um grande mestre misterioso ou o líder de uma escola de mutantes para ajuda-la. Nem tampouco alguém que ela gosta morre violentamente para que a garota passe a empreender uma busca eterna pela justiça ou entenda que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades…

Em vez disso, a mãe conversa com a menina e em determinado momento até a leva para praticar esportes para que Ruri possa gastar energia, aprender a se focar melhor, ocupe a cabeça com uma atividade física etc.

É claro que no decorrer da história ainda há muito a acontecer e a ser revelado. Ruri conhecerá o pai dragão? Como ela foi concebida (muitos leitores inclusive  querem saber se o pai de Ruri e outros dragões eventuais conseguem se transformar em humanos quando desejam)? Quais outros poderes irão rugir? Ela ganhará asas e poderá voar? E garras e cauda, quem sabe?

O que quer que aconteça, porém, os leitores já sabem que por mais inusitados que sejam os desafios, a adolescente irá superar os obstáculos com o apoio da mãe, amigos e professores. E que Ruri continuará sendo incrível e diferente, mas também desajeitada, por vezes solitária, sem entender direito o que está acontecendo e constantemente assolada por sentimentos intensos e conflituosos.

Afinal, mais do que uma garota-dragão superpoderosa, Ruri Dragon é uma adolescente, crescendo e tentando entender mais a si própria, e descobrindo o próprio lugar no mundo. E, vamos combinar, isso em si só já é uma tremenda aventura.

NOTA DO CRÍTICO: Esse é bom

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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