Coringa: o (ótimo) filme e os quadrinhos

O filme Coringa (Joker), que chegou aos cinemas neste mês de outubro de 2019, é uma história de origem, ou seja, conta (uma versão de) como surgiu o vilão.

No filme, o espectador irá conhecer Arthur Fleck, um sujeito que tem um estranho distúrbio que o faz gargalhar sem controle ou razão – ele inclusive carrega um cartãozinho que explica a estranha condição e que tenta passar às mãos das pessoas em momentos de surto.

Fleck vive com a mãe que, talvez com o objetivo de suavizar a vida  dele, incutiu na cabeça do filho desde pequeno que a “missão” dele é fazer o mundo sorrir, tornar as pessoas mais felizes.

Algo um tanto quanto difícil, ainda mais na Gotham City dos anos de 1980, que vive às voltas com uma recessão econômica sem precedentes, desemprego recorde, violência à flor da pele e ainda problemas sanitários de grandes proporções, incluindo falta de coleta de lixo e infestações de ratos.

Neste cenário, o esquisitão Fleck tenta ganhar a vida fazendo bicos como palhaço, homem-placa e, mais ambiciosamente, fazer sucesso como comediante standup. O resto do mundo, porém, parece estar disposto a jogá-lo para baixo com bullying, humilhações  e pancadaria gratuita que eventualmente o farão reagir da maneira mais psicopata possível. Sim, como você sabia desde o começo, ele se tornará o Coringa e liderará uma revolução, ou melhor, uma convulsão social sem precedentes que irá instaurar o caos e potencializar ainda mais a selvageria .

Esta história em específico não está no gibi, porém ela bebe em diversas fontes que estão. A maior delas é o clássico A Piada Mortal, de autoria da dupla britânica Alan Moore (roteiro) e Brian Bolland (desenhos).

Publicada em 1988 pela DC, esta Graphic Novel trazia o Coringa como protagonista em uma aventura chocante já nas primeiras páginas, quando – pouco depois de Batman descobrir que o Coringa fugiu do Asilo Arkham – uma cena idílica se torna trágica.

Bárbara Gordon (secretamente a Batgirl) está passando uma tarde calma com o pai, o comissário James Gordon, quando vai atender a campainha e se depara com o psicopata, em chamativos trajes de férias de verão. Ele atira nela (o que irá deixá-la tetraplégica) e sequestra o pai.

O Comissário é levado para um parque de diversões abandonado onde é torturado pelo vilão, inclusive com uma das piores torturas possíveis: o Coringa exibe fotos de Bárbara, nua e ferida – dando a entender que além de tudo ela foi violentada por ele e seus cúmplices. Peraí, isso é sombrio paca, mas não tem nada disso no filme!

Vamos com calma. O que o Coringa pretende com todo esse plano draculesco  é provar que qualquer um pode ser vilão se for surrado e humilhado pela vida, que a culpa te se tornado um psicopata é da vida e não dele (ou seja, se levar Gordon a um limite, ele também deixará a lei de lado e se tornará um maníaco). Essa visão  – narcisista, como pontua Joaquin Phoenix – com certeza norteia o filme.

Mas tem mais. A HQ alterna o presente com momentos do passado do Coringa, mostrando em flashbacks uma versão para o surgimento do personagem. Nela, um sujeito com pretensões de ser um comediante standup (opa, olha ele aí) vive uma vida bem ruinzinha tentando sustentar a ele a mulher que acredita que ele é um ótimo comediante e pode tornar o mundo mais feliz. Neste caso, não é a mãe e sim a esposa, Jeannie.

Em determinado momento, a vida resolve bater com tudo no rapaz: a esposa, grávida, morre em um acidente bizarro e, antes mesmo que tenha tempo para absorver as péssimas notícias, ele se vê envolvido em um assalto personificando um bandido famoso e tudo acaba mal.

Além de testemunhar um segurança de idade de quem gostava ser baleado e a gangue presa pelo Batman, o azarado anti-herói cai numa tanque de ácido na tentativa de fuga. Quando finalmente chega a um lugar mais seguro pelos canos de esgoto, a pele está branca e os cabelos verdes, um gatilho final para que  ele se renda à insanidade.

Ainda que esta origem do Coringa seja sem dúvida uma das principais referências quadrinísticas do roteiro, ela não é a única. Quem assistir ao filme Joker identificará várias aos quadrinhos de Frank Miller, em especial O Cavaleiro das Trevas (destaca-se entre elas a cena da icônica participação em um programa de TV, por exemplo), e mesmo algumas referências visuais a outras HQs.

Em tempo, é bom ressaltar que o Coringa do filme que acaba de chegar aos cinemas está atualmente no que é chamado de “Universo DC estendido”, ou seja, não entra na cronologia de outros filmes da DC como Liga da Justiça, Aquaman, Mulher-Maravilha, Batman versus Superman e por aí afora. Na prática, Joaquin Phoenix dificilmente contracenará com quem quer que esteja interpretando o Morcegão em um próximo filme da bat-franquia.

Porém,  há uma cena em Joker na qual o ainda não-vilão contracena com Thomas Wayne e o garotinho Bruce Wayne, apenas pra deixar claro que os dois já coexistem em Gotham City, ainda que não sejam antagonistas.

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Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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