Imagine o que aconteceria se HP Lovecraft – o escritor estadunidense conhecido pelos monstros grotescos e disformes, geralmente com muitos tentáculos e bocas – se unisse a um diretor de filmes gore como David Cronemberg (A Mosca) ou Hershell Lewis (Banquete de Sangue) para juntos fazerem uma História em Quadrinhos do super-herói japonês Ultraman.
O resultado dessa união improvável seria algo parecido com Ultramega, HQ de autoria de James Haren lançada pela Devir – e que, inclusive, teve uma caprichada preview de 28 páginas distribuída gratuitamente pela editora em todo o Brasil na Virada Nerd 2025.

A história se passa em um mundo assolado por uma praga alienígena que transforma humanos em kaijus (sim, os tradicionais monstros gigantes que invadem o Japão em filmes, mangás e animes). Porém essas criaturas em nada lembram ícones do gênero como Godzilla ou Mothra. Cada uma delas parece ser mais grotesca que a outra, com um aspecto, bem, lovecraftiano é uma boa descrição.

Ao mesmo tempo, uma estranha criatura do espaço concede superpoderes a três seres humanos – Stephen Meyer, Ern e Jason (este último, um ex-boxeador decadente e inicialmente o protagonista da história). Quando um dos três chega perto de uma pessoa contaminada, se transforma em um herói gigante estilo Ultraman, Ultraseven, Spectroman…deu para captar a referência, não?

O grande diferencial da aventura, porém, é que as lutas são extremamente sanguinolentas, com direito a empalamentos, tripas expostas e pedaços de corpo arrancados, tanto de monstros quanto de heróis e pessoas inocentes que estão nas redondezas.
Para quem ainda não se convenceu do uso do termo grotesco, vale um spoiler: na luta entre o trio de heróis principais contra o (até então) monstro mais terrível, o resultado é uma chuva de sangue, seguido de uma inundação vermelha que coagula e mata milhões de pessoas afogadas/cimentadas no sangue seco.

Neste sentido, a imaginação de James Haren não tem limites. A terra arrasada se torna uma sociedade pós-apocalíptica com humanos tentando sobreviver ao caos, e com novos kaijus e heróis e surgindo – ou ressurgindo de maneira ainda mais bizarra.

A aventura segue por tempos e cenários (inclusive espaciais) que vão se sucedendo e prolongando por 460 páginas de, como a própria editora descreve acuradamente, “horror cósmico, ação brutal e crítica social em um mundo devastado por monstros e heróis deformados.”
E sangue e vísceras, que ganham ainda mais destaque na arte expressiva de Haren e nas cores intensas de Dave Stewart. Muito sangue e muitas vísceras.

Indicada ao Prêmio Eisner em 2022 como Melhor Nova Série, Ultramega também é descrita como “uma carta de amor sombria aos tokusatsus clássicos como Ultraman e Power Rangers.”
A descrição é poética e verdadeira, desde que se dê (muita) ênfase no sombria.




Review incrível, mas pelas imagens, não é para mim não!