A volta de Tina e os caçadores de enigmas, série que mais mudou a turma da personagem criada como hippie em 1970

Criada por Mauricio de Sousa em 1970 como uma sátira à geração hippie, a personagem Tina já passou por uma série de reformulações ao longo de mais de seis décadas de existência. Uma das maiores ocorreu no final de 2007 e está sendo relançada agora pela Panini: Tina e os caçadores de enigmas.

Na época, a revista trouxe mudanças nos argumentos, que ficaram com uma carinha de série exibida em streaming (naquele período, na TV a cabo), em histórias recheadas de aventuras, diálogos engraçados e brincando com mistérios e lendas diversas, inclusive algumas estabelecidas em torno dos próprios personagens – como a que diz que Tina, Rolo e Pipa seriam Mônica, Cebolinha e Magali crescidos. Ou mesmo o romance entre os dois personagens principais, que passa a ser mais palpável a partir de então.

Tina e os caçadores de enigmas  também mudou o visual de alguns personagens. A protagonista, que já tinha mudado bastante ao longo dos anos se transformando em uma mulher mais real (que chegou a virar sex symbol e teve até convite para posar nua), apenas teve a cor dos cabelos trocada dentro das histórias. Eles passaram a ser pretos, em vez de marrons. Além disso, ficou definido que ela tinha 21 anos e estava cursando Jornalismo na faculdade.

Já Rolo passou por mudanças bem mais drásticas, deixando de ter a barba e os cabelos azuis emoldurando todo o rosto no – até então – estilo girassol. Pipa, por sua vez, passou a ter um corpo um pouco mais curvilíneo, além de trocar a eterna minissaia preta e blusinha branca por roupas mais estilosas, maquiagem leve e um cabelo mais na moda. E até o namorado dela, Zecão, também foi mais humanizado e perdeu o narigão redondo de batata, ainda que tenha permanecido com um nariz mais avantajado que os demais.

Já em 2007 as mudanças chamaram a atenção e o cartunista Jal, que então assessorava Mauricio de Sousa, avisava que elas tinham vindo para ficar. “Elas foram criadas coletivamente pelos profissionais do estúdio e a ideia é que sejam incorporadas nos gibis mensais da Turma da Mônica”, afirmava. De fato, quase duas décadas depois, os visuais de 2007 ainda se mantém na maioria das HQs – ainda que o nariz de Zecão tenha sofrido uma certa recaída e se estabelecido em um meio termo.

Vale registrar, porém, que nem tudo na história original envelheceu tão bem. Em um diálogo entre Pipa e Rolo na primeira triologia, por exemplo, o barbudo cita um disco de Rock e a amiga diz que disco é coisa do passado, que o negócio agora é “CD”. Ele replica que prefere MP3. Ironicamente nenhuma das duas tecnologias citadas sobreviveu bem e os vinis voltaram a vida como itens de luxo e de colecionador…

Mistério Cósmico

Ao todo, Tina e os caçadores de enigmas foi composto por nove gibis (com periodicidade mensal), divididos em três trilogias. Na reedição de 2025, cada trilogia foi reunida em um volume diferente. Portanto, são três volumes – que podem ser adquiridos nas bancas, livrarias ou no site da Panini. Cada um custa R$ 24,90 e tem 144 páginas.

A primeira trilogia é Mistério Cósmico, aventura na qual a turma da agora estudante de jornalismo está investigando uma suposta aparição de extraterrestres no Brasil, ocorrida em 1952.  A HQ é repleta de citações a filmes e fatos reais envolvendo mistérios e objetos voadores não identificados (nos números 1 e 3 originais, inclusive, havia um apêndice pós história registrando cada uma das curiosidades).

Até a escolha de 1952 para o suposto contato não é aleatória, já que foi naquele ano que foram criados os transistores de silício e circuito integrado, o que, pontua Tina, foi um avanço tremendo em muito pouco tempo, uma evidência de tecnologia alienígena.

Diga-se de passagem, não faltam teorias da conspiração (inclusive importadas): o terreno da represa onde na HQ foi visto o Ovni, por exemplo, acaba interditado pelo exército estadunidense e é chamado de área 48 – porque surgiu antes da famosa área 51 nos EUA, onde supostamente houve um pouso alienígena. Em tempo, não à toa o militar brasileiro que chega primeiro ao local se chama “Rosiuel”…

Por fim, vale registrar uma outra mudança de rumo dos personagens surgida nesta trilogia: Jaiminho, até então um moço bonzinho e um pouco ciumento com quem Tina costumava namorar de maneira bastante estável nos gibis, passou a ser um ex-namorado apontado como bonito, mas burro. E acaba se aliando à vilã terrestre da história, a invejosa Rúbia. E o termo vilã “terrestre” aqui não foi usado à toa, já que a HQ traz vários personagens alienígenas, inclusive alguns malvados que têm uma relação de parentesco com, quem diria, os dinossauros.

Criaturas Lendárias

A segunda trilogia (reunida no volume 2) é Criaturas Lendárias , que se inicia no Amazonas e traz desde a lenda do surgimento da mandioca (contada por um indígena xavequeiro que para o desespero de Rolo fica dando em cima de Tina) às guerreiras amazonas, a fonte da juventude e um folclórico mapinguari que parece um yeti verde.

Não à toa, como o final da história mostra, com direito a passagens pelo Himalaia e pela Austrália. Ah, e mais uma vez há extras nas edições esclarecendo citações de lendas e cultura pop.

Por fim, na derradeira Aventura no Triângulo das Bermudas o foco é na misteriosa área em que supostamente desaparecem aviões e embarcações das mais diversas. Mais uma vez recheada de referências a fatos reais e à cultura pop (até o seriado Lost faz ponta na HQ) explicados em apêndice, a aventura envolve viagens no tempo e antepassados de Rolo e Tina.

O de Rolo, por sinal, aparece no desenho tradicional, e ocorrem beijos entre os protagonistas e os antepassados um do outro.  O que eleva a tensão romântica entre Tina e Rolo “originais”.

Feitas com argumentos divertidos e com pesquisa caprichada, as trilogias não só marcam mudanças históricas na turma da Tina como, para os leitores, são diversão garantida. Vale a pena conferir os três volumes!

 

NOTA DO CRÍTICO: Esse é bom

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

3 comentários

  • Adoro seus textos. As mudanças na personagem não me instigaram. O cabelo está esquisito, personagem gordinha continua com namorado com cara de Shrek… Comecei a achar defeitos. 🫤
    Sei lá, a Tina do meu tempo era jovem mesmo!

  • Adorei a reportagem! Mas eita, que alívio que o nariz do Zecão tá mais modéré hoje, né? Antes dava medo de comer batata! As mudanças na Tina também são notáveis, mas acho que a minha ainda era mais fofo. Ah, e os apêndices nos gibis originais! Que dedo na mosca da pesquisa da Panini. As trilogias reformuladas estão ótimas, mistério cósmico, criaturas lendárias, tudo com um toque de referências que fazem a história virar uma xícara de café com história. A única que me surpreendeu foi a Tina virar namorada de Jaiminho, o bonito mas burro, kkk. Mas é bom ver que as aventuras continuam divertidas e bem pensadas!watermark ai remover

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