Prisão de liberdade: uma HQ capixaba com aventura, porrada, busca por identidade e…Sartre!

Byll é um menino negro que sofre bullying na escola em que estuda, em Vitória (ES), tem uma mãe doente e um pai – pastor evangélico – extremamente rigoroso e frio com o garoto. Mas a vida dele dá uma bela guinada quando a mãe o envia para ficar com Deivid, um menino mais velho que ela criou contra a vontade do marido e que acabou deixando a casa dos dois para se estabelecer em Serra, uma cidade da região metropolitana. Sob a tutela dele, Byll irá questionar tudo o que sabe – por vezes indo além dos ensinamentos do amigo – e descobrir quem ele é.

Byll é o personagem central da HQ Prisão de liberdade, uma história sobre crescimento e busca por identidade, mas também repleta de aventura. Até porque o garoto  também irá aprender a lutar – não só de maneira figurativa, mas também literalmente – e eventualmente ficará frente a frente com um vilão típico dos quadrinhos, um estadunidense chamado Azedus, com quem ele tem mais em comum do que imagina.

O tal sujeito, que quer criar uma droga que cause a obediência total, é seguido por um exército de “falsos patriotas” meio zumbificados e se utiliza de armas pouco convencionais, que incluem uma agência de publicidade que produz conteúdo “para ensinar a verdadeira história do país.” O nome da agência é Paralelamente Brasil. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência, claro.

A HQ colorida, dinâmica e permeada pela filosofia do francês Jean-Paul Sartre (1905-1980) foi escrita e desenhada pelo cartunista Eliabe da Silva Moraes, que assim como o protagonista dos quadrinhos atende pelo apelido de Byll. Em entrevista exclusiva ao MundoHQ, ele fala mais sobre Prisão de liberdade, filosofia e muito mais. Confira.

MundoHQ  – Quando um quadrinista coloca o próprio nome no personagem principal da HQ,  a pergunta é óbvia: existe algum elemento autobiográfico no protagonista (ou na história) de Prisão de liberdade? Quais as semelhanças entre a história do Byll cartunista e do personagem?

Byll – Parando pra pensar colocar o próprio nome no protagonista da sua história parece um complexo de superioridade (risos), mas realmente há algo de biográfico em Prisão de liberdade: passei boa parte de minha vida em uma igreja (obrigado pelos meus pais, que são cristãos beeeeem fervorosos) e, ao conhecer Sartre, tomei as rédeas da minha própria vida. Muito tempo atrás ouvi o quadrinista Thiago Spyked falar em um vídeo do canal do youtube dele que “ninguém quer ouvir a sua história de vida em quadrinho” e desde então eu me tornei o maior mentiroso que já existiu quando o assunto é quadrinhos.

O filósofo Jean Paul Sartre é uma influência declarada e marcante na HQ. Qual a sua relação com o pensamento de Sartre?

Em meu ensino médio o meu professor de filosofia (abraços, Cláudio) organizou para que minha turma fizesse um trabalho de apresentação sobre diversos filósofos, e desde então eu digo que ele “me deu” o Sartre. À primeira vista o pensamento de Sartre é contraditório: “O ser humano está condenado a ser livre”, mas ao se aprofundar em suas ideias e entender a responsabilidade que essa liberdade trás você é chamado a exercer um papel no mundo. Acho que Sartre foi a chave que me libertou da minha prisão de influência externa e me botou numa… PRISÃO DE LIBERDADE!?!? Maldito Jean Paul Sartre…

O visual do personagem principal vai variando bastante ao longo da história, ele parece inclusive envelhecer enquanto os demais, como o Deivid, não. O que há por trás dessa ideia, demonstrar o ganho de maturidade, talvez?

Isso tem muito a ver com a ideia de ser protagonista da própria vida. Deivid, Ruivão e os outros já vivem aquilo que acreditam e por isso não tem graaandes mudanças (exceto nas roupas e cabelo). Byll é um caso diferente: ele cresceu sem ter uma identidade e agora está descobrindo quem ele é, por isso as mudanças tão gritantes. Lembre-se: o ser humano é como um rio e ninguém toma banho duas vezes no mesmo rio (Heráclito 1×1 Sartre).

 Sem dar spoilers, achei muito interessante a odisseia do Byll da HQ terminar com o personagem, já “todo poderoso”, se encaminhando profissionalmente e dando um retorno para a sociedade. Seria esse o verdadeiro ato de heroísmo?

Com toda certeza. Há algum tempo o mangá de Boku no hero acabou e as pessoas mundo afora ficaram decepcionadas com o autor, pois o protagonista, que havia ficado fortíssimo, perdeu seus poderes e se tornou um professor (apesar de que, no Japão, o final foi melhor aceito). Nós crescemos consumindo obras onde os personagens se tornam os mais poderosos de seus mundos e nos acostumamos com isso, o que faz com que histórias com finais mais realistas nos decepcionem.

Apesar da liberdade artística que tive, acredito que meu quadrinho está muito mais próximo da vida real em meu país do que Boku no hero, e acredito que não haveria um outro final para minha obra. A batalha de Byll não acabou, ela só mudou para outro lugar: a mente. A luta de Byll agora será trabalhar na escala 6×1 (riso).

Voltando à pergunta, acredito que Byll é, sim, um herói, apesar do Ruivão ter se mostrado um herói ainda maior. Ficou curioso? Leia Prisão de liberdade e entenderá.

 

Toda metáfora tem diversas interpretações, mas explique um pouco das suas razões para que o Byll ganhe um visual, digamos, mais endemoniado à medida que se liberta dos conceitos padronizados que tinha, e o fato de o pai dele, uma figura no mínimo retrógrada, ser um pastor.

Eu quis fazer uma brincadeira utilizando o conceito “inversão de valores”. Em One Piece a marinha é ruim e são os piratas quem fazem o bem, em algumas comunidades são os policiais que invadem e os ditos “bandidos” são quem tem uma conduta de proteção aos moradores.

O status quo de nossa sociedade é cristão e binário, o que faz com que tudo que não é cristão seja do “mochila de criança” (sempre adorei esse título). Ao pensar em um pastor nós iremos associá-lo a um anjo e temos ideias prontas do que um anjo é (fala a verdade, é pacífico, prega o amor). Quando vemos que um anjo/pastor está disposto a nos lançar no inferno porque ousamos ser nós mesmos (como o pai do Byll), podemos pensar que talvez o demônio não seja tão ruim assim. Além disso, esse visual endemoniado também passa pelo Sartre, que diz que “nosso diabo é o outro”.

A história se passa no Espírito Santo, em cidades como Vitória e Serra, com visuais que incluem locais reais destas cidades. Como você escolheu as locações, fez pesquisa para reproduzir prédios e estruturas etc?

O Espírito Santo é lindo e, incentivado pelas leis de incentivo à cultura do estado (nunca canso de agradecer a Secult pela Funcultura), quis apresentar alguns cenários que conheço. Todos os lugares escolhidos eu mesmo já frequentei, então foi fácil para mim selecioná-los. Cada um deles também tem motivos específicos para serem escolhidos e, dessa forma, fazem a trama ir para frente. Quando tiverem oportunidade venham para o Espírito Santo e vejam por vocês mesmos os locais do quadrinho. Tenho certeza de que vão amar (o estado e o quadrinho).

Você pensa em fazer alguma continuação de Prisão de liberdade ou essa história já foi contada?

Eu penso bastante sobre isso. Pelo que vi os editais só contemplam obras fechadas, então continuações vão ficar no papel se depender deles (o que não acho errado, afinal outros merecem a oportunidade de lançarem suas obras). Mas gostaria sim de lançar uma continuação (quem sabe, Beija-flor editorial?). Será que Byll seria uma espécie de mestre para um novo personagem? Será que Byll terá que lutar numa revolução? Será que inimigos do passado irão voltar para enfrentar Byll?  Talvez um dia tenhamos essa resposta… 

Qual é a mensagem que você espera que o Byll da HQ transmita aos leitores?

Eu espero que Byll mostre aos leitores que “não importa o que fizeram com você, mas sim o que você faz com você agora” (não é culpa minha isso ser confuso, é o Sartre de novo).

Também espero que percebam que um país não existe sem as pessoas. Passamos um péssimo período em nosso país com um presidente que se dizia patriota e zombava das mortes sofridas pela população em relação ao Covid. O que é meu país senão aqueles que o constroem? Byll luta pela soberania, tanto a nacional quanto no poder de escolher os rumos de sua própria vida. Isso é ser patriota: amar aqueles ao seu redor e fazer o bem a elas.

Para quem não te conhece, você tem outras HQs? E como as pessoas podem adquirir Prisão de liberdade?

Tenho pouca coisa publicada lá no Fliptru e, como é gratuito, vocês podem ler a vontade. Acho que vocês vão poder notar um amadurecimento no traço e nas histórias (espero que dê para notar ou vou sentir que não evolui). Eu sempre estarei anunciando novos projetos em meu instagram.  O Prisão de liberdade vai estar, a partir do dia 04 de outubro de 2025 (não precisa agradecer por te situar no tempo, leitor do futuro) disponível para ser comprado em versão física e digital na Amazon e vocês poderão ter mais informações acessando o site da Beija-flor editoral. São majestosas 148 páginas coloridas por apenas R$39,00. Não perca a chance de adquirir essa maravilhosa obra e até faço um desafio: compre esse quadrinho para um jovem. Tenho certeza de que esse material será de grande valor para a formação do caráter e da empatia dos mais novos.

Uma mensagem final?

Eu gostaria de agradecer pela chance de apresentar um pouco de mim aqui. Eu falo muito através de desenhos, e é bom poder falar em entrevistas de vez em quando. Não posso esquecer de agradecer a SECULT e a Beija-flor Editorial: sem vocês esse projeto não seria possível.

Obrigado a todas as pessoas que me incentivaram na minha jornada e que não permitiram que eu desistisse daquilo que eu tanto amava, que é criar mundos. E a você, leitor, eu tenho dois pedidos: apoie o quadrinho nacional. Muita coisa boa é produzida aqui dentro, mas infelizmente a mancha da ignorância cega algumas pessoas e isso leva elas a dizer que produção brasileira não presta. Bando de vira-latas! Por que não começar a apoiar o quadrinho nacional comprando Prisão de liberdade?

E seja o melhor que você puder ser para o seu próximo. Nosso mundo carece de bondade, mas tenho esperança que juntos nós poderemos alcançar um futuro em que todos poderemos viver bem, juntos como companheiros. É isso. Carpe diem, porque passará!

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

2 comentários

  • É claro que Byll é um herói, até meu vizinho gato acha que ele é o maior (e o gato é gay, então a scale é alta)! Mas essa ideia do Sartre me deixou pensativo: ser protagonista da própria vida… e eu ainda não saí do sofá para pegar o café! Mas acho a ideia de Byll lutar pelo poder de escolher os rumos de sua própria vida bem legal, até que me dê uma tese pra usar no college. E acho que o final de Byll é melhor que o de Boku no Hero, que por sinal, me fez sentir tão decepcionado que precisei de um quadrinho brasileiro pra me consolar. Afinal, o que tem mais power que um herói que agora só luta na mente, trabalhando na escala 6? Carpe diem, até que eu aprenda a usar essa expressão sem soar que estou tentando ser cool!machining parts manufacturers

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