O presidente dos Estados Unidos é um sujeito midiático, egocêntrico, manipula fatos como melhor lhe convém e age como se fosse o rei do mundo. O país se envolve em diversas guerras e, internamente, o governo enfrenta instabilidades com truculência. Esse é o pano de fundo de Liberdade a Qualquer Custo (Give me liberty: na american dream), Graphic Novel de 1990 que venceu do Prêmio Eisner (o Oscar dos quadrinhos) naquele mesmo ano.

Na época, o cenário da história escrita por Frank Miller e desenhada – com excelência – por Dave Gibbons tinha um caráter de crítica ácida, talvez até um pouco exagerada. Mas hoje, em 2026, quando os EUA são presididos por Donald Trump, sequestram o presidente da Venezuela, ameaçam anexar a Groenlândia e o Canadá, usam taxas para tentar obrigar outros países a agirem como eles querem, se metem nos mais diversos conflitos no mundo e internamente enfrentam uma enorme turbulência gerada por conflitos da presidência com os estados (em especial pelas ações do ICE)… a História em Quadrinhos ganha um estranho ar de premonição e profecia.
Aliás, o presidente dos EUA na HQ, o republicano Erwin Rexall, revogou a 22ª Emenda Constitucional do país para poder ter mais de dois mandatos. O também republicano Donald Trump constantemente vem dizendo que quer um terceiro mandato e que “há métodos para isso.” Será que…?

Clarividências à parte, Liberdade a Qualquer Custo é uma ótima história que tem como protagonista a personagem Martha Washington. A narrativa começa em 1995, com o nascimento de Martha.

A menina cresce no Green, um “projeto habitacional” em Nova York no qual a maior parte da população negra da cidade vive confinada. Normalmente quem nasce ali, morre ali, sem ter a chance sequer de sair dos muros que cercam o local. O gueto tem comércio próprio (bem como os próprios chefões do crime), módulos habitacionais minúsculos e milhares de caminhos que se entrelaçam. Não há ruas, afinal, para que ruas em um lugar em que ninguém tem carro?
Extremamente inteligente, em especial quando se trata de computadores, Martha acaba sendo institucionalizada após entrar em estado de choque depois de vivenciar um episódio de extrema violência.

Anos depois, ela foge do hospício, quase é morta pelas forças policialescas fascistas que “limpam” as ruas de indigentes e usa os conhecimentos e um cartão roubado para conseguir dinheiro e sumir do mapa.
Porém, preocupada em ser recapturada, Martha acaba se alistando nas Forças de Paz dos Estados Unidos (a “PAX”, criada pelo presidente Randall), que não só anistia como “apaga” o passado daqueles que se alistam.

Soldada exemplar, Martha constantemente vai até a Amazônia, onde a PAX enfrenta uma imensa corporação estadunidense ilegal – a Fat Boy Burguer – que pretende transformar a floresta em um grande pasto para criar gado e transformar em hamburguer.
Ali ela acaba testemunhando ações de traição do próprio superior, tenente Moretti, que quase a assassina para que ela não o denuncie. Contudo ela não só sobrevive como acaba sendo reconhecida como grande heroína. Infelizmente para ela, o tal superior também.

A partir daí a genialidade de Miller só se acentua, com as tensões nacionais e internacionais crescendo enquanto a agora sargento Martha Washington tenta sobreviver às missões suicidas para as quais o também promovido capitão Moretti a envia. Eventualmente, o caos político provocado por Rexall – tido como o presidente “mais popular da história” e o que “devolveu os colhões ao país” – chega a tal ponto que ocorre um atentado violentíssimo e a cúpula do governo inteira é vitimada.

Com o presidente em coma e todos o que ocupavam postos de comando no governo mortos, quem assume o cargo é o único sobrevivente da esfera administrativa.
Trata-se do improvável Howard Johnson Nissen, um democrata que havia assumido temporariamente o cargo inexpressivo de secretário interino de agricultura, e que estava prestes a ser substituído quando o ato terrorista aconteceu.

Nissen assume cheio de boas intenções e, inicialmente, bons atos, alguns inspirados pela heroína Washington. E é ele – não o republicano Rexall – que envia a PAX para a Floresta Amazônica, a fim de tirar a Floresta das mãos da Fat Boy Burguers.
Contudo, despreparado para ocupar o cargo, Nissen acaba se tornando (ou sendo transformado em) um bêbado altamente manipulável e, em dado momento, é dado um golpe de estado que leva os EUA em definitivo a uma guerra civil. Que tem em um dos muitos lados o psicopata paranóico “cirurgião geral”, um maluco que atuava como uma espécie de secretário da saúde de Rexall, misturando conservadorismo extremo a conceitos nada científicos sobre saúde (alguém aí falou Robert Kennedy Jr?)
Aliás, cabe um parêntese: as facções imaginadas por Miller para dominar cada parte do país têm um caráter bastante caricaturesco. Mas a julgar pelo tanto de “profecias” que ele colocou da HQ, é melhor não duvidar de nada no futuro…

Em toda essa confusão, a heroica Martha Washington continua a lutar pelo que é certo. Ou melhor, pelo que pode ser descrito como a legalidade do país. Ao mesmo tempo, é constantemente colocada em risco de morte pelo cada vez mais poderoso e obsessivo (agora coronel) Moretti.
Peça central em um jogo político que ignora, ela chega a ser capturada pelo Cirurgião Geral e a sofrer lavagem cerebral, se esquecendo completamente de quem é por um tempo.

O conflito final entre golpistas e remanescentes leais ao conceito de um país democrático se dá na Floresta Amazônica e o final é um pouco diferente do que muitos imaginam. Não em relação a Martha Washington prevalecer sobre o vilão.
Com a ajuda de uma dupla inesperada – um guerreiro Apache e uma menina deformada com poderes telepáticos -, ela vence. E a cena final com Moretti, já no pós-guerra, é fortíssima e inesquecível.
Contudo, no cenário político desenvolvido por Miller, o final está longe de ser feliz. Sim, os EUA voltam a ser um país unido, em especial em torno do candidato eleito para ser o novo presidente da república. Ou seria o presidente da república de novo?

Com muito mais camadas do que aparenta, Liberdade a Qualquer Custo é um daqueles quadrinhos que precisa ser lido. E que envelheceu muito bem. Infelizmente, dirão alguns.




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