Em 1939, o filme O Mágico de Oz causou uma revolução cultural nos EUA (e, depois, no mundo). O impacto do longa estrelado por Judy Garland não se restringiu ao uso inédito da alternância de preto e branco (na verdade, tom sépia) para as cenas do “mundo real” com as cores vibrantes do então inovador technicolor para o mundo fantasioso de Oz.
A história, que revelava que a maior autoridade daquele mundo – um mágico supostamente poderosíssimo – era na verdade um tremendo enganador (algo que décadas depois seria reforçado na peça teatral e no filme Wicked), trazia uma mensagem muito forte. Não só que as aparências enganam, mas também que o poder efetivo vem das pessoas e não das autoridades: a menina Dorothy, ao final, descobre que o poder de voltar para casa era dela mesma.

Oitenta e sete anos depois, o filme serve de base para uma história em quadrinhos hilária e com críticas certeiras a figuras de autoridade, estrelada por ninguém menos que o presidente estadunidense Donald J. Trump. Não, ele não é o Mágico. Na HQ O Maga de Oz – que já de cara cutuca com a sigla do slogan trumpiano Make America Great Again – o roteirista Lucio Luiz e o desenhista Bira Dantas transformaram Trump em Dorothy.
E, é claro, outras figuras de autoridade – presidentes – alinhadas a ele completam o quarteto clássico do filme: o argentino Javier Milei é o espantalho (sem cérebro), o israelense Benjamin Netanyahu é o Homem de Lata (sem coração) e Jair Bolsonaro é o Leão Covarde (ou sem coragem, para os que preferirem).

“A ideia surgiu meses atrás, quando apareceu uma notícia de que tornados fortes atingiriam Washington na mesma época em que o Instituto Cacique Cobra Coral (que alega controlar o tempo) disse que ‘retaliaria’ o Trump. Daí pensei em, a partir desse mote, jogar o Trump no mundo de Oz (meu cérebro funciona de maneira bem estranha…). Mas então resolvi fazer algo mais universal e o Cobra Coral era uma referência muito específica do Brasil, então fiz as pragas enviadas por Deus mesmo. Como disse, meu cérebro funciona de forma estranha”, conta Lucio Luiz.
Com as ideias na cabeça, o autor (que além de roteirista também é jornalista, pesquisador e fundador da editora Marsupial) foi em busca de um desenhista e acabou encontrando uma fera do traço, o cartunista Bira Dantas. Que, por sinal, já conhecido por sátiras mordazes a diversas figuras do mundo político.
“Em julho do ano passado, o Lucio me procurou contando sobre a ideia pra uma série de tirinhas com o Trump no estilo Mágico de Oz e me perguntou se eu sabia de alguém que teria um tempo pra desenhar isso… e que não tivesse interesse em tirar visto pros EUA. Minha resposta foi imediata: eu! Apesar de não ter muito tempo sobrando, adoraria desenhar os roteiros dele e no quesito visto pros EUA estou tranquilo, não pretendo pisar lá por nada”, relembra.

Um detalhe importante: apesar de Bira Dantas ter levado a sério, Lucio garante que estava brincando sobre a história do visto. “Estava sendo irônico, só uma brincadeira mesmo. Claro que com um pequeno ‘fundo de verdade’ pelo fato de que eles atualmente olham redes sociais e coisa e tal, mas não acredito que isso vá permanecer existindo depois que o Trump deixar a presidência. Se isso acontecer algum dia, claro…”
Presepadas contínuas
A afirmação de Bira em relação ao tempo escasso acabou se mostrando verdadeira e a HQ acabou demorando cerca de seis meses para estrear. “A ideia do Lucio foi muito original e me empolgou desde o início, mas a minha demora quase inviabilizou o projeto. Ainda bem que o Trump continuou a fazer presepadas. Pensando bem, teria sido melhor que ele tivesse se regenerado de julho pra cá”, diz Bira, acrescentando que – na verdade – Trump “só foi piorando.”
Lucio esclarece, porém, que a primeira tira foi entregue em setembro, apesar de as publicações – inicialmente no Instagram do autor – terem começado agora em janeiro. “O Bira entregou a primeira tira meses atrás, mas segurei para publicar quando tivesse mais algumas. Nesse ínterim, as maluquices do Trump aumentaram e o texto foi refeito para refletir questões mais recentes. Estou aprendendo a fazer letreiramento e balonamento na unha (sempre terceirizei isso na Marsupial …rs) exatamente para poder fazer ajustes no texto original para algo mais recente”, conta.

De fato, citações a eventos mais atuais, como o sequestro do ditador venezuelano Nicolás Maduro “para ser julgado” nos EUA por suposto envolvimento com tráfico de drogas, se encaixaram muito bem na tira. Assim, a citada ira de Deus que leva Trump a Oz ocorre porque, depois de ver seu pleito de ser o novo Jesus ser rejeitado pelo Vaticano, o mandatário alaranjado invade o Paraíso e sequestra o Nazareno original em retaliação.
Uma curiosidade é que a HQ – com capítulos quinzenais publicados no Instagram de Lucio Luiz (clique aqui para acessar) – tem versões na língua inglesa e na portuguesa. “Resolvi fazer os roteiros simultaneamente em português e em inglês porque, como o tema é global, achei que assim poderia alcançar mais gente. E é um bom exercício porque, diferentemente de pegar um texto pronto e traduzir, eu já tenho que pensar nas piadas para funcionarem nas duas línguas”, conta.
Ele acrescenta: “Tem um trocadilho com ‘bricks’ (nota da redação: literalmente “tijolos”, no caso os dourados da estrada que leva a Oz) e ‘BRICs’ (n. da r.: sigla da aliança de países pela cooperação do Sul Global , capitaneada por Brasil, Rússia, Índia e China) que vai ficar totalmente perdido em português, mas ainda tenho esperança de achar a solução…rs”

Estudo
Bira Dantas conta que, para desenhar a HQ, assistiu de novo o filme O Mágico de Oz e pesquisou sobre ele. “Li sobre o impacto cultural que o filme representou na sociedade estadunidense da época. Foi o marco entre filmes PB/cor e uma revolução no cinema com o uso do Technicolor, virando referência duradoura para a narrativa gráfica a cores. Fora as mensagens alertando sobre seguir figuras de autoridade, como o Mágico vigarista de Oz. Isso em 1939, durante a segunda guerra mundial e a ameaça nazista rondando o mundo” destaca.
Para Bira Dantas, o filme subverteu convenções narrativas da luta do bem contra o mal, e ensinou que “não há soluções mágicas para problemas sérios.” Ele relembra, ainda, a celébre história envolvendo o clássico e o grupo musical Pink Floyd.
“Dizem que o álbum The Dark Side of the Moon (1973) sincroniza perfeitamente com o filme, criando momentos de conexão, uma teoria popular conhecida como Dark Side of the Rainbow (n. da r.: em referência a música tema Somewhere over the Raibow, cantada por Judy Garland no filme). Muitos fãs apontam coincidências como a letra de Breathe durante a caminhada de Dorothy ou batidas do coração do álbum no peito do Homem de Lata. Verdade ou invenção? Quem poderá confirmar?”

Por fim, Bira fala ainda sore a experiência de desenhar os roteiros de Lucio Luiz. “Está sendo uma experiência muito interessante. Roteiristas fazem a gente, que desenha os próprios roteiros, repensar o processo de contar uma história. O tempo é diferente, os personagens falam de outros jeitos e quem desenha imagens acaba se deixando levar por quem conta histórias”, conta.
E em tempos em que Donald Trump defende a liberdade irrestrita de expressão apenas para si mesmo e seus apoiadores, já tendo conseguido censurar diversos conteúdos que não são do agrado dele, Lucio Luiz achou melhor -por garantia – disponibilizar a história em outros meios além do Instagram.
Como foi produzida em um formado para a rede social, o Insta continua sendo o melhor lugar para ver a O Maga de Oz, mas se um dia a conta do autor sumir de lá, é possível ver a HQ também em https://tapas.io/series/The-MAGA-of-Oz/info ; https://www.webtoons.com/en/canvas/the-maga-of-oz/list?title_no=1117027 ; https://lucioluiz.com.br/omagadeoz/ e https://lucioluiz.com.br/themagaofoz/ .

Isso posto, a torcida é para que a HQ continue firme e forte, até porque a julgar pelos últimos tempos, não vão faltar argumentos para críticas e risadas à dupla Lucio e Bira. Difícil mesmo é esperar quinze dias para ver o próximo capítulo…




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