Quadrinistas normalmente se inspiram em elementos da própria vida ou naquilo que os cerca para criarem personagens. Nenhuma surpresa, então, que o novaiorquino Scott Adams – cartunista estadunidense que faleceu neste dia 13, aos 68 anos – tenha se baseado na própria vida profissional para criar Dilbert, uma das tirinhas mais lidas em todo o mundo e que chegou a ser publicada em mais de 2000 jornais distribuídos por mais de 70 países (e 25 idiomas) diferentes.
No final dos anos de 1980, Adams trabalhava no Crocker Bank – em um emprego que detestava na mesma medida em que o entediava -quando começou a rabiscar uma tirinha para se distrair. Batizou o protagonista, um funcionário medíocre inspirado nele mesmo, de Dilbert. O resto é história: levada aos jornais, a tira se transformou rapidamente em sucesso mundial, deu origem a uma série de livros e até mesmo batizou obras e teses econômicas. Também se transformou em desenho animado, série de animação adulta e até filme.

Em maio do ano passado, Adams foi diagnosticado com um câncer de próstata extremamente agressivo, que já tinha se espalhado para os ossos. O prognóstico era de meses de vida, o que levou o quadrinista a antecipar uma despedida aos fãs na passagem do Ano Novo. “Tive uma vida incrível (…) dei tudo de mim”, disse.
Mesmo doente, Adams seguiu desenhando os quadrinhos de Dilbert até novembro de 2025, quando foi obrigado a parar por causa de câimbras e de uma paralisia parcial nas mãos. Ele ainda fez, contudo, novos argumentos para as tirinhas.

Polêmicas no final da vida
Em meio à radicalização política dos últimos anos, Scott Adams se tornou centro de uma grande polêmica em 2023, que impactou diretamente no sucesso até então incontestável de Dilbert. A controvérsia nasceu no podcast diário que ancorava (Real Coffee With Scott Adams), o mesmo no qual a segunda ex-esposa, Shelly, confirmou o falecimento nesta terça.
Adams estava debatendo uma pesquisa da Rasmussen Reports atestando que 53% dos estadunidenses negros concordavam com a frase “Tudo bem ser branco” (It’s OK to be white) – slogan promovido por supremacistas brancos, de acordo com a Liga Antidifamação. O cartunista – que anteriormente já havia se envolvido em polêmicas por questionamentos em relação ao holocausto e comentários antivacina da Covid – começou então a classificar pessoas negras como um grupo disseminador de ódio e a dizer que “não ajudaria mais” estadunidenses pretos. Apesar de ter admitido posteriormente que se manifestou de maneira “exageradas”, ele não se retratou e continuou a defender a postura que assumiu no podcast.

O fato levou ao cancelamento de Dilbert em diversos grandes jornais. O Sun Chronicle, de Massachusetts, chegou a manter o espaço da tira em branco como “um lembrete contra o racismo que contamina a sociedade.” Na sequência, a distribuidora da tirinha rompeu contrato com Adams.
O autor passou publicar as tiras então, em uma versão, considerada mais mordaz por muitos leitores, batizada de Dilbert Reborn, em site próprio com visualização por meio de assinatura e na plataforma Rumble. Adams afirmava que havia sido “cancelado” pela “indústria moribunda de fakenews de esquerda em virtude de declarações tiradas de contexto.”

“Minhas redes sociais e conta bancária permanecem intactas. Minha vida pessoal melhorou. Nunca fui tão popular em minha vida(…) Conservadores negros e brancos me apoiam fortemente”, afirmava.
A morte do cartunista foi lamentada de maneira oficial pelo presidente dos EUA, Donald Trump. E também por inúmeros fãs dos quadrinhos de Dilbert que, independentemente de partilharem ou não das visões políticas de Scott Adams, se divertiram por décadas com as desventuras de um sujeito sobrevivendo em meio a burocracias inúteis, chefes burros e torturadores, colegas preguiçosos e um cachorro que sonhava em dominar o mundo.
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