Existe algo de perturbador em Cebolinha – Erros, segunda Graphic MSP assinada pelo quadrinista Gustavo Borges que tem o garoto de cinco fios de cabelo como protagonista. Todo leitor dos gibis regulares da Turma da Mônica sabe que o personagem criado por Mauricio de Sousa em 1960 tem uma verdadeira obsessão por ser o “dono da rua” e, para isso, cria os planos mais desvairados.
Em Erros, porém, a sede de poder dele – alimentada por sentimentos de inveja e vingança – é tanta que eventualmente alguns planos dão certo, mas machucam muita gente pelo caminho. E o que perturba os leitores, em especial aqueles que gostam do troca-letras, é ver a coisa ir crescendo e Cebolinha continuar insistindo em ganhar poder a qualquer custo.

O incômodo – gerado com maestria pelo roteiro e desenhos de Gustavo Borges – é tão grande que há momentos em que dá vontade de entrar na HQ e dar uma chacoalhada no garoto para ver se ele se esperta.
Mas Cebolinha não para e, eventualmente, a vida irá se encarregar da chacoalhada…

Cronologicamente Erros acontece depois dos eventos mostrados em Recuperação, a primeira Graphic de Cebola produzida por Borges. A leitura da primeira, porém, não é obrigatória para entender essa nova história – ainda que possibilite uma melhor apreciação de alguns detalhes e citações.
Quem viu Recuperação, por exemplo, talvez se lembre que o plano final do menino para ajudar o pai desempregado era abrir um petshop caseiro. Um dos primeiros momentos de Erros é justamente mostrar que esta ideia, mesmo com a ajuda da turma, não está dando certo e ainda acaba machucando (fisicamente) um deles.

De resto, a vida de Cebolinha continua não sendo muito fácil: sofre bullying de Tonhão na escola, tem dificuldades para trazer mais gente para o clubinho (e com os horários para interagir com Mônica, que frequenta uma escola diferente), leva bronca da mãe porque os pais gastam dinheiro com fonoterapia e ele não se aplica, continua falando elado…

Contudo, por um acaso do destino, ele descobre que a mãe – na infância – era a mandona do bairro e da escola ou, melhor dizendo, “a dona da rua.” Movido pelo que acha ser um direito de herança, ele decide intensificar todos os planos e esforços para assumir o cargo e é aí que exagera na mão.
Para chegar aonde quer (mais do que o dono, ser o lei, quer dizer, o rei da rua) Cebolinha engana e magoa quem está no caminho, além de fazer alianças bastante complicadas.

“A ideia de uma história com o Cebolinha passando de herói para ‘vilão’ surgiu em 2022, mas demorei para trabalha-la por achar que não seria aceita. Foi conversando com meus amigos Vitor Cafaggi (Franjinha – Contato) e Rafael Calça e Jefferson Costa (Jeremias – Pele, Alma e Estrela), que ganhei confiança de propor esse roteiro mais ousado. O objetivo nunca foi fazer essa transformação de forma gratuita. Afinal, o Cebolinha é um personagem muito complexo. Ele sempre faz tudo, e vai até a última consequência para ter o que quer”, diz Borges.
Calma, leitores, o final é feliz! Mas para chegar nele, Cebolinha terá que amadurecer bastante e ele mesmo sentir um pouco da dor que causou nos outros…

Por sinal, para mostrar o nível de arrependimento e a sinceridade do perdão que irá pedir aos amigos, Borges tem uma sacada genial e surpreendente tanto para eles quanto para quem está lendo a história. E que, obviamente, não será revelada aqui, pois seria um spoiler de marca maior.
Sem dizer muito, talvez seja possível afirmar apenas que uma das mudanças que o personagem sofreu quando apareceu em Turma da Mônica Jovem tem sua origem mostrada neste trecho. Entendedoles entendelão.

Vale ressaltar ainda o trabalho que Borges faz nos diálogos paralelos entre os pais de Cebolinha, tentando entender o que está acontecendo com o filho e meio perdidos em relação a como agir para garantir o melhor para ele. Diálogos que espelham uma realidade conhecida por muitos pais e que fazem a diferença na HQ. Aliás, a carta que seu Cebola escreve para o filho é de uma sinceridade tocante, assim como o diálogo da mãe com o menino sobre consertar coisas quebradas.

Ah, sim, como é de praxe, ao final da história o leitor é brindado com extras contendo informações de bastidor, arte e alguns fatos históricos do “Cebolinha de Mauricio de Sousa”, além de uma minibiografia de Gustavo Borges. Cebolinha – Erros tem 80 páginas e pode ser adquirido tanto no site da Panini quanto em livrarias ou sites de comércio eletrônico diversos.





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