Daniel Azulay, professor de desenho de milhões de crianças

“Criança que não desenha passa a vida em branco.” A frase é do quadrinista, artista plástico e educador carioca Daniel Azulay, que – com certeza absoluta – foi o responsável por milhões de meninos e meninas não terem passado a vida em branco.

Quem foi criança em especial nos anos de 1970 e 1980, quando não existia Internet, streaming TV a cabo nem sequer smartphone, provavelmente aprendeu com ele os primeiros traços ou um truque para fazer um desenho ficar mais legal. Ou mesmo como montar um brinquedo usando sucata e os mais diversos objetos – como um pregador e uma rolha para fazer um carro de fórmula 1, por exemplo (Daniel foi pioneiro nesta área na TV, décadas antes de programas como Art Attack e tantos outros que seguiram nesta linha).

Nascido na cidade do Rio de Janeiro, em 30 de maio de 1947, Azulay era advogado formado, mas adorava desenhar e acabou fazendo carreira na área. Segundo alguns, apesar de ele desenhar desde pequeno, o talento aflorou mesmo quando fazia a faculdade de Direito, na universidade Cândido Mendes, em 1969. Foi nesta época que ele começou a publicar as primeiras histórias em quadrinhos e cartuns, em diversas revistas e jornais.

Entre os primeiros personagens estavam o Capitão Cipó, um apresentador de TV que se transforma em super-herói (com tirinhas publicadas diariamente no Correio da Manhã, entre 1968 e 196) e  Piparoti, de 1969, que futuramente “evoluiria” para um personagem da Turma do Lambe-Lambe.

Esta turminha que, por sinal, viria a ser a criação mais famosa dele, estreou em 1975  também como tirinha do jornal Correio da Manhã. Os principais personagens – como a vaquinha Gilda, a coruja Professor Pirajá e a galinha Xicória – seguiram com o desenhista para a TV ainda na mesma década.

Os primeiros programas de Azulay eram transmitidos pela TVE e pela Bandeirantes, e neles o autor criou o bordão “Algodão doce pra você!”, que por sinal foi muito bem lembrado por Mauricio de Sousa na homenagem feita pelo pai da Turma da Mônica quando Azulay morreu, vítima da Covid-19, em 27 de março de 2020.

 

“Aqui a homenagem de todos do nosso estúdio ao querido Daniel Azulay, que nos deixou nesta semana. Vai fazer muita falta sua Turma do Lambe-Lambe, seu sorriso permanente, seu carinho nas aulas de desenho para a criançada, sua bondade… Vai com Deus, Daniel”, disse então Mauricio em postagem no Instagram.

Apesar da fama da Turma do Lambe Lambe (que teve até gibi próprio pela editora Abril entre 1982 e 1984), esta com certeza não é a maior lembrança das crianças que acompanhavam Azulay na TV aberta. O que todo mundo gostava mesmo era de aprender a desenhar e a fazer os brinquedos, e ainda tentar adivinhar o desenho do “pincel mágico”.

Aliás, em uma época em que a televisão estava nos primórdios, muita gente queria mesmo era adivinhar como funcionava o truque, que hoje todos sabem ser algo bem básico em televisão, mas que à época era um tremendo “efeito especial.”

Foram pelo menos 15 anos de TV aberta. Neste período, Azulay também investiu em outras áreas e se tornou pintor, músico, escritor, ilustrador de livros infantis e educador, focando em especial no uso da arte e educação para o desenvolvimento de crianças e jovens. “Desenhar pode ser mais simples do que você pensa, é um casamento da observação e do pensamento”, dizia.

Em 1996, Daniel Azulay voltou a TV aberta pela Band-Rio, com o programa “Oficina de Desenho.” Entre 2003 e 2005, apresentou a Turma do Lambe-Lambe (que também teve discos lançados) no canal fechado TV Rá-Tim-Bum. Fez ainda o programa “Azuela do Azulay” – que contava com participações dos personagens – no Canal Futura.

Daniel Azulay também ensinava por meio dos desenhos a importância de conceitos como sustentabilidade e meio ambiente, bem como se envolvia em vários projetos sociais e de conscientização. Em 2014, por exemplo, ele criou Soprinho e seus amigos, personagens infantis desenvolvidos para a Operação Lei Seca do RJ.

O personagem Soprinho é um bafômetro falante que, por meio de histórias divertidas, alerta e conscientiza as crianças sobre os problemas causados pela mistura de álcool e direção. Os personagens foram usados em ações educativas da Lei Seca para o público infantil por diversos anos.

Em 2018, Azulay recebeu um merecido Troféu HQMIX, o Oscar dos Quadrinhos Nacionais, pelo conjunto da obra. “Vivenciei muita coisa bonitas na televisão e trabalhar com criança é gratificante porque você pode se multiplicar, pode criar de forma quase infinita. Isso é muito fascinante e é uma grande benção que recebi”, pontuou na época.

Nos últimos anos de vida, Azulay vinha ensinando desenho a crianças pela internet e havia ainda criado o curso de ilustrações Oficina de Desenho, com unidades no Rio. Duas semanas antes de falecer ele foi internado no CTI da Clínica São Vicente, na Gávea, onde lutava contra uma leucemia. Contudo, o quadrinista – que estava com 72 anos – contraiu no hospital o Coronavírus, o que agravou o estado de saúde e acabou causando a morte dele.

 

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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