Eu Sou Caipora: animação brasileira protagonizada por menina autista busca recursos para acelerar produção

Uma animação brasileira protagonizada por menina autista chamada Luana que, buscando proteger a natureza, vai se deparar com uma das lendas mais ricas do folclore brasileiro. Eu Sou Caipora: A Menina e O Poder das Matas é um curta-metragem que tem tudo para dar certo e que, até este sábado (18) busca mais recursos no catarse para acelerar e dar maior qualidade à produção, que deve ter pré-estreia on line exclusiva em dezembro e,  a partir de 2026, ganhar espaço em festivais de cinema e animação.

“Fazer animação é caro. Moana custou pra Disney cerca de 150 milhões de dólares e, se a gente fosse seguir isso como lógica, Eu Sou Caipora, com a duração que tem, custaria uns 26 milhões de dólares, algo muito distante do que a gente tem disponível. Claro que a Disney não é um parâmetro, mas ainda assim fazer animação é trabalhoso, tem argumento, roteiro, story board, animatic, gravação de vozes… Cada cenário, personagem, objeto de cena tem arte conceitual, design, modelagem , texturização, material. Cada segundo do filme passa por layout de animação, iluminação, renderização, composição, matchpainting…é um trabalho gigantesco”, elenca Thiago Vieira, diretor da animação.

Felizmente, com o auxílio de quase 800 apoiadores, a campanha de financiamento do curta atingiu a meta inicial de R$ 40 mil e a segunda, de R$ 80 mil. Quanto mais gente ainda colaborar até a data limite (e garantir brindes bem bacanas, diga-se de passagem), melhor, pois um maior montante final possibilitará mais investimentos para tornar a aventura da pequena Luana ainda melhor.

Caipora

Thiago Vieira conta que o projeto surgiu em 2020, com a ideia de fazer uma animação 3D mostrando como a sabedoria do povo é um dos maiores poderes para lutar pelo meio ambiente. “O ponto de partida foi a Caipora, protetora das matas. Em cada canto do país a gente acredita na caipora. Os povos indígenas, caipiras, ribeirinhos, quilombolas, todo mundo acredita de alguma forma. E o mais bonito disso tudo é que em cada canto ela vai ganhando características diferentes. Tem gente que jura que a caipora é um gigante de pelos vermelhos, mas tem gente que acredita que é uma menina pequenininha que anda montada num queixada”, diz.

De fato, conforme contou o historiador e folclorista  Luís da Câmara Cascudo em Geografia dos Mitos Brasileiros (obra de 1947 que ainda hoje é uma das maiores referências no tema) a criatura – também chamada de caapora – é originalmente do sexo masculino em algumas regiões do Brasil e do feminino em outras .E a aparência, cita, varia de “um grande homem de pelos negros” a “uma indígena pequena coberta de pelos e cabeleira açoitante.” Até mesmo a montaria muda de um queixada ou cateto (porco-do-mato típico do Brasil) a um veado, além de por vezes caipora ter por companhia um cachorro, Papa Mel. Em regiões argentinas ou uruguais, onde o mito também é conhecido.  Caipora é descrito como um fantasma que pode se transformar em cão ou porco, lançando fogo pela boca.

Tanta diversidade de formas acabou sendo utilizado pela equipe de criação da animação de maneira inteligente. “Isso nos levou a sonhar esse sonho de uma maneira coletiva desse o início. Então cada pessoa que põe a mão no projeto de alguma forma contribui para o que é a caipora na visão da Luana, que é a protagonista do filme”, conta Thiago Vieira.

Na animação, Luana é uma garota autista e apaixonada pelos animais, que vive no interior de São Paulo com a avó, Dona Marinete. A menina adora a natureza e tem como companhia um macaco-prego chamado Quiquinho. Um dia o animalzinho é capturado por contrabandistas de animais selvagens e Luana – inspirada pelas histórias que a avó conta sobre a caipora – fará de tudo para resgatar o amigo.

Voz conhecida

Quem assistir ao trailer do filme, disponível no Youtube,  talvez reconheça a voz de Luana. É que quem interpreta a menina na animação é a atriz e dubladora Fernanda Ribeiro, que tem no currículo, entre outros, as vozes de Anais (O Incrível Mundo de Gumball), Yuri (Meu AmigãoZão), das versões criança de Mérida e Rapunzel (nas animações da Disney Valente e Enrolados, respectivamente) e da terrível menina Darla, de Procurando Nemo.

A equipe de Eu Sou Caipora é composta por quase 30 pessoas, e envolve a produtora audiovisual independente Ravura, o coletivo audiovisual Mútua e o Folclore BR, movimento de resistência cultural criado em 2013 que busca uma nova visão do folclore brasileiro em diálogo com temas da atualidade como a cultura pop. O projeto está sendo produzido na ferramenta Blender, software livre construído por uma comunidade internacional apaixonada por animação  e que recentemente ganhou os holofotes por conta de Flow (2024), vencedor do Oscar de melhor longa de animação em 2025.

Eu Sou Caipora não é só sobre a equipe e os apoiadores do projeto. Eu Sou Caipora é também sobre todos aqueles que lutam e resistem pela terra que a gente vive, sobre todos aqueles que podem dizer que são protetores do meio ambiente. Sobre todos aqueles que podem dizer de alguma forma: eu sou caipora”, finaliza Thiago Vieira.

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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