Quadrinhos direto da Amazônia!

Quando se pensa em Amazônia, a imagem que vem à cabeça é, obviamente, a de uma imensa floresta. Peça para que alguém cite algo que tem na região e a resposta – ainda mais em tempos de COP 30 – irá girar em torno de meio ambiente, fauna, flora, povos indígenas e até mesmo fatos bem mais tristes como desmatamento ou garimpo ilegal. Dificilmente uma pessoa irá responder “Histórias em Quadrinhos.” Pena, porque a Amazônia tem, sim, ótimas HQs e quadrinistas de primeira, que inclusive estarão em peso na Bienal de Quadrinhos de Curitiba 2025, que acontece nesta semana (de 4 a 7 de setembro).

Ao todo, farão presença na capital paranense onze autores naturais de estados que integram a chamada Amazônia Legal – que, só pra lembrar, é composta por Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão (parte oeste do estado), Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Confira quem são esses talentos e lançamentos mais recentes.

Natural de Manaus (AM), a ilustradora indígena Raquel Teixeira é uma entre os expoentes da HQ amazônica. Designer formada pela Universidade Federal do Amazonas, a artista levará ao evento o gibi Heranças,  com 32  páginas, colorido e feito de forma artesanal e independente por ela

“Heranças é um miniprojeto de tirinhas onde conto um punhado de experiências que tive e tenho com as encantarias que carrego, e foram passadas através de meus ancestrais”, conta Raquel.

Ela também estará lançando no evento Vá pela sombra, obra feita a oito mãos e que traz duas histórias que têm como fio condutor o eclipse solar anular. O fenômeno ocorreu no dia 14 de outubro de 2023 e pôde ser visto completamente de cidades do Norte e Nordeste do país.

Raquel (arte) e o também manauara Luiz Andrade (roteiro) estão à frente da história O acordo, na qual o humilde José Inácio trabalha para um empresário da borracha no meio da Floresta Amazônica. Um dia, José é abordado por um homem misterioso que faz a ele uma proposta estranha: ele poderá viver mais do que qualquer homem já viveu, desde que siga certas regras. Se não, o destino dele será selado durante o eclipse.

A segunda história, Ritual Chupim, é de uma dupla de Fortaleza (CE),  Deleon Stu (roteiro) e Chico Oliveira (arte).  Nela, a vampira Joanadarque precisa realizar um ritual para reidratar o mestre fogoió antes que o eclipse termine ou que o velho acabe com a paciência dela.

Outro destaque das HQs da região amazônica é a quadrinista TAI, que integra o coletivo Quadrinistas Indígenas e que em 2022 foi indicada aos prêmios HQ Mix e Angelo Agostini com a HQ Causos de Visagens para Crianças Maluvidas.  Autodefinida “artivista” (ativista + artista) visual e professora nativa de Mairí (nome indígena original de Belém do Pará), ela levará para a Bienal de Curitiba o suspense Onde Habita o Medo, que fez em parceria com designer e ilustrador Nilberto Jorge, o Nil.

O quadrinho de 200 páginas é focado em Kauê, um menino introspectivo que sempre visita os avós em uma ilha às margens do rio Amazonas. Os habitantes do local levam uma vida tranquila, até que crianças começam a desaparecer. Kauê  decide descobrir o que está por trás do mistério e se une (contra a vontade) a três moradores da vila (Tainara, Lucas e Moema). O quarteto então passa por desventuras encantadas e assustadoras, “em uma jornada de respeito e escuta à sabedoria dos anciões e retomada da espiritualidade de seu povo.”

A ilustradora amazonense Ray Cardoso é uma das talentosas artistas de Mamunhã na terra do Waraná, segundo volume da série escrita por Evaldo Vasconcelos que incorpora elementos da cultura indígena do povo Sateré Mawe – a dupla estará presente na Bienal de Curitiba.

Nas 40 páginas dessa aventura, Jabutis e Quatipurus precisam superar diferenças para salvar a floresta de um inimigo poderoso e muito perigoso. Além do lançamento, o primeiro volume (Maramunhã, uma lenda Manaus), também estará disponível no estande.

Natural do Amapá, a quadrinista Thai Rodrigues é autora de Sagrado, obra que acompanha a jornada de uma jovem que mergulha em um rio sagrado em busca de sentido para própria dor. Um relato sensível e delicado que convida o público leitor a uma reflexão sobre acolhimento, autoconhecimento e esperança.

Já o paraense Leonardo Dressant é o criador A Batalha nas Sombras, HQ que une suspense e ação em uma aventura na qual um espírito maligno trama pactos sombrios em troca de poder e vida eterna. Em meio a mistérios ancestrais, a história mistura cultura, fantasia e resistência – e fala muito sobre ego, arrogância e obsessão pelo poder.

Amanda Modesto traz em Semana do Cão a história de um cachorro perdido na cidade de Belém. Com um toque de fantasia e bom humor, a quadrinista paraense aborda com leveza um drama real dos animais de rua que se perdem e ficam expostos aos perigos urbanos, muitas vezes sendo auxiliados por pessoas de bom coração que prestam socorro das mais diversas formas.

Direto de Tocantins, a dupla Pablo Marquinho e Álvaro Maia traz Vicente Lua Cheia, a história de um garoto que – depois de perder o pai em circunstâncias misteriosas – embarca numa viagem solitária até a cidade, numa corrida contra o tempo para reunir utensílios necessários para fazer uma armadilha, voltar antes da lua cheia e derrotar uma fera pouco usual: meio lobo e meio anta. A HQ é  viagem autêntica pelos mitos e lendas da região Norte, misturando terror, ação e aventura.

Com roteiro e arte do amapaense Lucas Saruzilla, O Menino e a Baleia  começa quando a colheita e transporte de açaí é subitamente interrompida pelo aparecimento do que parece ser um enorme peixe, que atrapalha o fluxo das embarcações. Ao descobrir  que se revela uma jovem baleia, um menino curioso a segue com curiosidade e entusiasmo, explorando do emaranhado da mata até o fundo das águas em uma aventura pela foz do Rio Amazonas.

Por fim, na HQ autobiográfica Quase tudo são flores, a paraense Karipola faz reflexões profundas sobre estereótipos do mundo feminino a partir da própria aversão a flores,em uma HQ coestrelada pela própria avó, a  afetuosa dona Celeste. Uma História em Quadrinhos inteligente e sensível, que vale a pena ser lida.

Em tempo: todos os quadrinistas citados neste texto fazem parte do movimento Norte em Quadrinhos,  iniciativa que busca valorizar, divulgar e fortalecer a produção de quadrinhos da região Norte do Brasil.

Atuando como vitrine para artistas e coletivos da Amazônia, o grupo merecidamente vem ganhando cada vez mais espaço no cenário nacional. Que continue assim, pois quem ganha (muito) são os fãs da nona arte !

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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