Alpino: o pai de Luzia, Samanta e Marlene

Ele já foi tipógrafo e guarda bancário armado antes de começar a mexer com desenhos e eventualmente se tornar um quadrinista de renome. Nascido em 4 de junho de 1970, na cidade de Baixo Guandu (ES), Alberto Alpino percorreu um caminho e tanto antes de se tornar conhecido em especial por três de suas “filhas”: a fofa Luzia, a independente Samanta e, em especial, a sensual Marlene.

Filho de uma dona de casa (Maria Neves) e de um funcionário da então companhia estatal Vale do Rio Doce (Alberto Correia de Alpino), o cartunista passou a infância em quatro cidades diferentes, em virtude de transferências do pai.  Foi só quando seu Alberto se aposentou, no início dos anos de 1980, que a família fixou residência na cidade de João Neiva, onde o jovem Alberto conseguiu o primeiro emprego na única e pequena gráfica local, a Herculis.  Ele era um dos três tipógrafos, uma profissão praticamente desconhecida nos dias de hoje. Na época, as impressoras das gráficas eram manais e era necessário escrever os textos com letras de metal (e ao contrário) em uma chapa que depois era utilizada para imprimir cada página, como um grande carimbo.

“Basicamente era o mesmo processo criado por Gutemberg no século XV. Após três anos me tornando um expert nas composições de qualquer tipo de impresso, meus dois colegas e eu fomos chamados para conhecer um novíssimo equipamento que a gráfica adquirira: um computador ligado a uma pequena impressora elétrica. A junção daquelas duas máquinas conseguia fazer o nosso trabalho de um dia em dez minutos. É claro, fomos demitidos”, relembra.

O segundo emprego foi bem inusitado. Usando um uniforme cáqui, cassetete e um revólver Rossi calibre 38na cintura, Alpino virou guarda de banco. “Foi um período divertido. Aprendi a atirar e, como o departamento do qual eu fazia a ‘segurança’ era apenas de correções dos balanços do dia, eu tinha oito horas livres para ler num ambiente climatizado, com almoço e lanche trazidos pela funcionária da nossa cozinha. Passei dois anos ali”, relembra.

Foi só em 1994, já com mais de vinte anos de idade, que se aproximou dos quadrinhos.  Ele foi contratado pela agência de publicidade M&M, sediada em Vitória, na função de ilustrador de cartilhas para o Governo Federal. “Eu passei a conhecer a ‘turma dos quadrinhos’, das agências, roteiristas, arte-finalistas e uma geração de novos e velhos artistas. Como resultado, meus rabiscos foram expostos em inúmeros ambientes da arte capixaba e culminaram com o meu primeiro espaço em um jornal diário”, conta.

A estreia foi em 2001 com a tirinha Luzia, personagem que teve o visual inspirado por uma foto da esposa do autor na época do jardim de infância. Inteligente e criativa, a garotinha vivia aventuras cotidianas, com direito a reflexões filosóficas e bem humoradas, muitas vezes a caminho da escola ou na mesa de jantar. Um elenco de apoio também foi aparecendo nas tirinhas, como a mãe dela, o cão Fróid e a colega Up.

Neste período Alpino também foi criando outras tiras, como SuperDog e A Doce Vida  – esta última sem personagens fixos e que despertou a paixão do autor por cartuns. Ambas, porém, tiveram vida curta. Mas em 2004 surgiria Samanta, uma jovem mulher independente, lutando para encontrar seu lugar na vida (pessoal, profissional e amorosa).

Batizada pelo autor em homenagem à filha, Samanta fez sucesso e passou a integrar o catálogo da Intercontinental Press (representante de inúmeros quadrinhos estadunidenses), chegando a ser publicada em onze jornais brasileiros.

Sempre criando mais, em 2009 Alpino passou a fazer charges para um site local, o Folha Vitória, e o trabalho chamou a atenção do portal Yahoo! Brasil, onde o autor estreou em 2010 como o primeiro cartunista do Brasil a ser pago para produzir charges políticas exclusivamente para a Internet – e deixando em definitivo os trabalhos que ainda mantinha na área publicitária. “Naquele mesmo ano fui o primeiro classificado no quarto concurso de ilustração da Folha de São Paulo na categoria cartum, passando a colaborar com o diário paulista. Em janeiro de 2012 passei a ter uma página com cartuns eróticos na revista Playboy”, relembra.

Quando a Playboy finalizou sua versão impressa no Brasil, a revista foi  para o Instagram e Alpino criou pela primeira vez uma conta própria na rede social, o @cartuns.alpino. “Ali eu postava inicialmente cartuns sobre saúde e o mundo fitness. Gradativamente foram surgindo na minha prancheta cartuns sobre o comportamento e psicologia. As coleções destes cartuns iniciais e dos anos que se seguiram deram origem aos eBooks Seu Genival – Freud Complica, Emmanuelle – O Fantasma da Casa da Colina, Fantine & Cosette, Diário da Pandemia e O Livro de Melquias, o Garçom”, conta.

A grande virada, porém, viria em 2018, quando uma leitora com problemas no casamento pediu a ele a criação de um cartum ilustrando a falta de interesse do marido em relação a ela, que tentava seduzi-lo a qualquer custo. Ali surgiu a voluptuosa Marlene, sucesso absoluto de público e vendas.

Inicialmente, Alpino fazia cartuns eróticos com a personagem, nos quais ela normalmente provocava, sem muito sucesso, o chatíssimo e sem noção esposo Alaor – os cartuns são publicados no Instagram exclusivo do casal. Depois, a personagem virou estrela de e-books mais explícitos, o que rendeu a Alpino até mesmo um banimento inexplicável da Amazon.

Atualmente, Alpino se dedica praticamente com exclusividade à Marlene, tanto a na versão soft quanto na mais hardcore, e vende os ebooks em página própria após o episódio da Amazon.

Sempre acessível ao público, que inclusive sugere temas e enredos para as aventuras da sensual ruiva, o cartunista capixaba se diz realizado com as três filhas que pariu nos desenhos (em especial Marlene, que o levou a ser amplamente conhecido como um autor de HQs eróticas). E, aparentemente, pretende continuar se dedicando apenas à moça sensual.

Mas, Alpino sendo Alpino, que ninguém estranhe se ele aparecer a qualquer momento com um novo personagem (feminino, provavelmente) e se reinventar de novo. Afinal, criatividade e talento para isso não lhe faltam.

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

Comentar

Nós usamos cookies para melhorar sua experiência. Ao continuar, você concorda com nossa Política de Privacidade.