O Brasil se despediu hoje (30) de Luís Fernando Veríssimo, um dos maiores escritores que o país já teve – foram 70 livros publicados (com 5,6 milhões de cópias vendidas) entre crônicas, romances e contos; além de colunas para jornais como O Estado de São Paulo, O Globo e Zero Hora. Entre as obras mais conhecidas, muitas geraram adaptações para teatro e TV, como O Analista de Bagé, Ed Mort e Comédias da Vida Privada. Contudo, além de tudo isso, Veríssimo tinha uma grande importância para os apaixonados por Histórias em Quadrinhos, afinal é de autoria dele uma das tiras mais bem humoradas e de humor refinado e certeiro em relação à polícia brasileira: As Cobras.

Criada em 1975- e publicada em diversos grandes jornais do país até 1999 – a tira não poupava críticas a ninguém e, ainda assim, passou incólume pelo período da Ditadura Militar. Para o autor, o segredo residia no fato justamente de ser uma tirinha. “A censura prestava mais atenção em textos do que nos traços. Acho que talvez tenha a ver com a tira ser algo aparentemente mais infantil, mais lúdica”, dizia.
O traço de Veríssimo era efetivamente mais simples, comum em tirinhas de humor, enquanto o argumento era bem mais afiado. O próprio autor brincava com o fato. “As Cobras são o produto da combinação do meu gosto por quadrinhos com minhas limitações como desenhista. Cobra é muito fácil de fazer, só tem pescoço”, brincou Verissimo na antologia definitiva das personagens, publicada pela editora Companhia das Letras em 2010.

As tiras eram centradas em duas cobras, que nunca tiveram nome, e que constantemente conversavam sobre…bem, praticamente tudo. De reflexões filosóficas a futebol e comentários do dia a dia (e principalmente críticas sociopolíticas), nada escapava das duas.

Elas não eram, porém, as únicas personagens da HQ do escritor gaúcho. Também apareciam – entre outros – minhocas que sofriam bullying das serpentes; cobras recém-nascidas e jovens; um passarinho político (cujo nome já dizia tudo: Queromeu, o corrupião corrupto); uma outra cobra fatalista e desesperada, que vivia anunciando o apocalipse (Dudu, o alarmista); Sulamita, a pulga lasciva; os caramujos Flecha e Shirlei; e Felipe, o príncipe que virou sapo.

Família Brasil
As Cobras não foram a única incursão de Veríssimo nos quadrinhos. Ele também criou, em 1988, As Aventuras da Família Brasil. Publicada continuamente até 2017, a história trazia uma família composta por pai (um personagem que do ponto de vista visual era extremamente parecido com o próprio autor), mãe, filha mais velha e filho mais novo – posteriormente, um neto seria incluso nas HQs.

Os personagens fixos não tinham nome, a exceção do namorado da filha, o genro que todo pai não queria, chamado Boca. As histórias eram crônicas bem-humoradas do dia a dia, nas quais a família lidava com questões que envolviam finanças, sexo, comportamento etc.
Ed Mort
Outro personagem criado nos livros por Veríssimo, o detetive Ed Mort (uma sátira aos detetives estadunidenses de aventuras noir) também ganhou versão em HQ no traço do cartunista Miguel Paiva, em 1984, no jornal O Globo.
As aventuras do investigador atrapalhado e sempre sem dinheiro foram publicadas por uma década, em milhares de tiras e cinco livros da L&PM. “Digo sempre que Ziraldo me ensinou a desenhar e Luís Fernando a fazer humor. Sua capacidade de síntese era única. Sua sofisticação aliada ao enorme sucesso popular provava que o humor podia ser fino e politicamente correto”, disse Paiva, em post publicado no Instagram em homenagem ao amigo.

Luís Fernando Verissimo morreu aos 88 anos, em Porto Alegre (RS), onde estava internado na UTI do Hospital Moinhos de Vento desde 11 de agosto. A morte ocorreu em virtude de complicações decorrentes de uma pneumonia. Veríssimo tinha Parkinson e problemas cardíacos e, em 2021, sofreu um Acidente Vascular Cerebral e, segundo a família, enfrentava dificuldades motoras e de comunicação.




O seu sogro era fã do Veríssimo. Me lembro de vários livros por lá.
Parabéns pelo texto. Desconhecia alguns fatos.