Rian, ou melhor, Nair de Teffé: a primeira mulher caricaturista

A expressão “uma mulher à frente do seu tempo” nunca se encaixou tão bem para descrever uma pessoa como no caso de Nair de Teffé.  Nascida em 10 de junho de 1886 em Petrópolis, no Rio de Janeiro, Nair de Teffé von Hoonholtz foi pintora, musicista, atriz, escritora, fluente em seis línguas e ainda uma primeira-dama que escandalizou parte do país (e ganhou a ira do famoso Rui Barbosa) ao promover um sarau de música popular e tocar violão. E, mais do que tudo isso, assinando com o pseudônimo “Rian”, foi a primeira mulher do Brasil – e possivelmente do mundo – a ser caricaturista.  

Nascida na nobreza brasileira (era filha do Barão e da Baronesa de Teffé, sobrinha do Barão de Javari e prima da Condessa de Frontin) e primeira mulher registrada no país com o nome de Nair (!), foi levada para morar na França quando ainda tinha um ano de idade. O pai era diplomata, e a família permaneceria na Europa pelas duas primeiras décadas de vida da futura artista.

Matriculada em conventos e escolas católicas francesas, descobriu as caricaturas logo aos nove anos. O narigão de uma das freiras que dava aulas no convento Saint Ursuline chamou a atenção de Nair, que a transformou em desenho.

A arte causou burburinho e risadas entre as demais alunas e Nair acabou sendo mandada para a “diretoria”. A Madre Superiora a colocou de castigo em um quarto escuro, por oito horas. Se o quarto fosse claro e com acesso a material de desenho, provavelmente a religiosa teria se tornado a segunda caricatura…

Tempos depois, foi a vez de os pais de Nair descobrirem o talento – até ali indesejado – da filha. Uma amiga da família, Madame Carrier, apareceu para uma visita surpresa. Nair foi obrigada a “fazer sala” por duas horas para a mulher, que aparentemente só sabia falar sobre cozinha, tema que não agradava em nada a filha do Barão de Teffé.

Para “se vingar”, assim que a visita saiu, Nair foi para o próprio quarto e transformou a tal madame em caricatura, mostrando na sequência o trabalho para os pais. O “prêmio” foi um novo castigo para menina, bem mais ameno que o dado pela Madre Superiora: nada de sobremesa naquela noite.

No Brasil, surge Rian

A família Teffé voltou ao Brasil quando Nair tinha por volta de vinte anos e dominava diversas formas de arte: pintava, tocava piano, atuava em peças de teatro e, claro, continuava a fazer caricaturas que, já no ano de 1906, apareceram pela primeira vez na mídia brasileira.

Usando o pseudônimo Rian – Nair escrito de “trás-pra-frente” e ainda uma brincadeira com o som da palavra francesa rien (Nada) – ela teve a primeira caricatura publicada pela revista Fon Fon naquele ano. A retratada era uma tal “artista Rejane”, pessoa da elite carioca da época, que viria a se tornar principal foco de Nair.

Com traço ágil e leve, as caricaturas de Rian começaram a ganhar espaço em diversos jornais e revistas além da Fon Fon. Os desenhos da moça saíam em O Binóculo, A Careta, O Ken, A Gazeta de Notícias, a Gazeta de Petrópolis, O Malho e Vida Doméstica. E ainda em três publicações francesas: Le Rire, Excelsior e Fantasio.

 

Assim, em 1910, com 24 anos, Nair de Teffé já tinha se firmado com caricaturista e todos sabiam de quem se tratava, ainda que – por opção – ela tenha mantido o pseudônimo nos trabalhos que assinava.

Nem sempre os desenhos eram bem recebidos pelos “alvos”. “Nas recepções eu era recebida com muita desconfiança pelos homens e com medo pelas mulheres, que por muitas vezes se escondiam atrás dos finos leques. Às vezes meus pais me aconselhavam a deixar a caricatura com medo de que fosse odiada, mas isso nunca me intimidou”, contou Nair ao jornal O Estado de São Paulo, em uma entrevista de 1979.

Aliás, se havia algo com que Nair não se preocupada era o que as outras pessoas achavam ou falavam dela. Em um período em que a música tocada no violão era vista como coisa de malandro ou vagabundo, ela não só tocava o instrumento como também era figura conhecida na vida boêmia do Rio de Janeiro, onde frequentava bares onde se reuniam artistas mais populares e intelectuais da época.

Casando com o presidente

A caricatura deixou de ser prioridade na vida de Nair de Teffé por algum tempo em virtude de uma razão pouco usual: o casamento. Com um presidente da República.

Amigo da família, o marechal Hermes da Fonseca presidiu o país de 1910 a 1914. Um ano antes de deixar o cargo e então viúvo há menos de seis meses, Hermes se apaixonou pela moça.

Na época, Nair estava com 27 anos e o presidente, com 57. Talvez por considerar que teria a verve crítica comprometida, ela resolveu deixar de lado o ofício de caricaturista a partir do dia do casamento, 8 de dezembro de 1913, data em que acrescentou o sobrenome “Da Fonseca” ao próprio (em tempo, ela chegou a fazer uma carica do esposo, como se vê abaixo).

 

Mas não deixou de lado o amor pelas artes nem a ousadia.  Como primeira-dama, acabou lançando “a moda” de mulheres usarem calças, em parte graças a paixão por andar a cavalo. Diferentemente das moças da época, não montava de lado, com pernas e vestido em uma única lateral do animal, se sim – vestindo calças – com uma perna de cada lado do animal. Na descrição da época, “como um homem.”

Também incentivou ainda mais a cultura popular, em especial a música, inclusive  promovendo saraus no Palácio do Catete, então sede do governo federal. E foi uma destas reuniões musicais que virou escândalo no ano de 1914.

 

A mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens

A história teria se iniciado quando o poeta Catulo da Paixão Cearense, em conversa com Hermes da Fonseca e Nair, lamentou a ausência de músicas brasileiras nos eventos da alta sociedade, inclusive nas recepções oficiais promovidas pelo governo.

Já há tempos uma apaixonada por violão, Nair resolveu que ia mudar aquilo com as próprias mãos e, em 26 de outubro de 1914, promoveu no Catete um grande recital (para alguns, uma festa de despedida de Hermes da presidência), com diversos músicos adeptos do violão.

E, para arrematar, coube a ela mesma tocar já no finalzinho do evento o Corta-Jaca, uma maxixe da compositora Chiquinha Gonzaga. Foi um escândalo, principalmente porque o ilustre advogado Rui Barbosa, adversário político de Hermes da Fonseca e à época senador (e também caricaturado por Nair anteriormente, arte acima), fez um discurso no senado, cheio de crítica e desprezo à música e ao casal presidencial.

“(…) diante do corpo diplomático, da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam dar ao país o exemplo das maneiras as mais distintas e dos costumes mais reservados, elevaram o corta-jaca à altura de uma instituição social. Mas o corta-jaca de que eu ouvira falar há muito tempo, que vem a ser ele, Sr. Presidente? É a mais baixa, mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, irmã-gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o corta-jaca é executado com todas as honras de música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte, que as moças se enrubesçam e que a mocidade se ria!” 

Se as moças enrubesceram e os moços riram mesmo, é difícil saber, mas o fato é que, tempos depois, no final dos anos de 1920, se tornou comum – e aceito e incentivado – que as jovens senhoritas tocassem violão em recitais públicos. Cortesia de Nair de Teffé.

A volta de Rian

Com o final da gestão do marido frente à presidência, Nair iria para a Europa por um tempo, cuidar da saúde – um acidente de carruagem causou uma lesão no quadril, que ao fim o deixou com uma perna menor que a outra. Voltaria ao Brasil em 1921 e, dois anos depois, se tornaria viúva.

Então com 37 anos, Nair continuou militando na vida política e cultural. Defendia direitos trabalhistas mais justos e empregos para as mulheres, criou a Academia Petropolitana de Letras e, em 1929, se tornou membro da Academia Fluminense de Letras. Em 1930, com a morte dos pais, mudou-se para o Rio de Janeiro e chegou a erguer um prédio em Copacabana, onde funcionou o Cine Rian.

Infelizmente, Nair se viciou em apostas (em especial pelo Jogo do Bicho) e perdeu quase tudo o que tinha.  Em 1950, passou a viver em uma casa mais modesta em Niterói, com os três filhos adotados.

Em 1959, porém, ocorreu a volta de Rian. Já com mais de 70 anos de idade, Nair de Teffé retomou com força as caricaturas, com o mesmo traço certeiro de sempre. Aliás, diziam alguns, até aprimorado pela idade. Neste período retratou diversos famosos da época, como os ex-presidentes Juscelino Kubitscheck e Jânio Quadros, e o revolucionário cubano Chê Guevara.

Os dividendos da arte, porém, não eram suficientes para pagar as contas e nos anos de 1970 ela chegou a ser despejada da casa onde morava. A situação financeira de Nair só se normalizou um pouco mais em meados de 1974, graças a uma decisão do então presidente Emílio Médice, que definiu que fosse feito o pagamento da pensão integral do falecido Hermes da Fonseca para a viúva.

Cerca de quatro anos mais tarde, o cartunista Gualberto Costa, o Gual (um dos fundadores da Associação de Quadrinistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo – AQC-ESP, e do Troféu HQ Mix), promoveu uma bela homenagem à caricaturista no II Salão do Humor e Quadrinhos do Mackenzie.  Nair, já com idade bastante avançada e com saúde frágil, foi levada até São Paulo onde foi festejada como primeira artista da caricatura do país – e provavelmente do planeta.

Nair faleceu em 1981, aos 95 anos, e – mesmo acamada – consta que ainda rabiscava em sacos de papel de pão caricaturas de atores e atrizes de programas que assistia na TV…

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

Comentar

Nós usamos cookies para melhorar sua experiência. Ao continuar, você concorda com nossa Política de Privacidade.