Criada nos anos de 1980, Denise chegou a ser atacada por usar “gírias gays”

Não é de hoje que as histórias em quadrinhos estão entre as vítimas da intolerância e de teorias da conspiração em geral. E nem mesmo mestres como Maurício de Sousa estão imunes a isso. Muito antes da estranha (e idiota) teoria surgida em 2017 de que a Turma da Mônica estava “incutindo a ideologia de gênero nas crianças”, a vítima da estupidez foi a personagem Denise –  que em 2022 estrelou a Graphic MSP Arraso.

Denise foi criada pela roteirista Rosana Munhoz na década de 1980 e apareceu pela primeira vez na história “A Fina”, no gibi Magali 5, então publicado pela Editora Globo. A garota, porém, era uma personagem secundária sem visual definido – isso mudaria muito ao longo das HQs, como mostra o quadro abaixo – e praticamente nenhum traço marcante.

A personalidade e maior padronização de desenho só viria quase uma década depois da estreia, em especial a partir da HQ “A Tribo das Modernosas”, de 1998, com roteiro de Emerson Abreu. Foi ele quem revolucionou a personagem e deu a ela uma de suas principais características: o uso de gírias peculiares, muitas delas vindas da cultura clubber.

O problema foi que, no início dos anos 2000, houve quem identificasse algumas das gírias da personagem – “Se joga”, “Acredita no bate-cabelo”, “A louca” e “Abafa o caso” estão entre as mais famosas – como comuns ao mundo gay e pregasse que as crianças poderiam “ser incentivadas a se tornar gay” por gostarem de Denise. homofobia pouca é bobagem.

Só para constar – conforme revelou Abreu em uma bela entrevista concedida ao site Vírgula – Denise não é homossexual. “Não, a Denise não é gay. Ela só se interessa por homens mesmo (…) A cena clubber estava no auge nos anos 90 e eu resolvi enriquecer o vocabulário dela com algumas gírias para mostrar que ela era uma menina mais antenada com o mundo atual (e também porque eu achava engraçado o fato de ninguém entender absolutamente nada do que ela dizia). Expressões começaram a brotar nas revistinhas bem antes de caírem no gosto popular”, conta.

Cabe ressaltar que, se Denise fosse gay, isso não seria nenhum problema – como na vida, há personagens das mais diversas orientações sexuais nos quadrinhos.  E ninguém “virou” hétero, homo, bi ou o que quer que seja lendo HQs, assim como nenhum dos milhões de habitantes do planeja que jogaram Mario Bros se tornaram encanadores.

Triste, porém, é constatar que em pleno século 21 ainda há espaço para tanta hipocrisia e ignorância, dentro e fora dos gibis.  Como diria a própria Denise: abafa o caso, fófis.

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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