Carlos Ruas não foi o primeiro cartunista a transformar Deus em tirinha de quadrinhos. A genial Laerte, por exemplo, fez isso bem antes e tem tirinhas maravilhosas com a deidade cristã.

Mas, enquanto a divindade é um personagem ocasional para Laerte e outros quadrinistas, para o carioca Ruas “Ele” é a estrela maior.

E os leitores correspondem amplamente. Para se ter uma ideia, são quase 2,7 milhões deles apenas no facebook (e outros quase 800 mil no Instagram e mais de 60 mil no Twitter). Um público – com o perdão do trocadilho – fiel, que adora as tiradas do Criador.
Os quadrinhos que têm Deus no papel principal (pra quem não sabe, a série chama-se Um Sábado Qualquer) já renderam ao autor um troféu HQMix (o “Oscar” dos quadrinhos brasileiros) na categoria Webtiras em 2012. E, em 2015, o livro Êxodo: nos bastidores da bíblia conquistou o 32° Troféu Angelo Agostini.

Não é para menos, já que não há nenhuma dúvida de que Ruas foi abençoado com um bom humor tremendo. Uma das mais recentes mostras desse humor está em De Onde Viemos, uma obra realizada com convidados especiais e inicialmente financiada via catarse, batendo (em muito) a meta estabelecida.
O autor precisava de R$ 70 mil para transformar o livro em realidade e conseguiu impressionantes R$ 589.322,00. Ou seja, arrecadou mais de meio milhão, atingindo 841% do objetivo.
“Foi meu projeto mais ambicioso. Vivemos em um país de maioria cristã, mas queria que as pessoas conhecessem mais religiões, porque estamos em tempos de diversidade. A ideia foi apresentar outros criacionismos que existem pelo mundo, selecionamos doze, sempre focados na origem do universo e da humanidade”, conta.

A linha condutora para a apresentação das diferentes origens do mundo parte de um lugar já conhecido do público leitor. O personagem principal de Ruas nas tiras sempre foi o Deus cristão (com um bom destaque para Luci, o capeta, e Adão e Eva), porém constantemente Jeová se encontra com outras divindades no “Buteco dos Deuses”.
E, claro, quando se junta egos incomensuráveis em um mesmo lugar, de vez em quando rola uma treta pra saber quem é o melhor, quem fez a melhor obra e por aí afora.

Assim, De Onde Viemos parte justamente de um destes embates, no qual os Deuses querem provar quem, afinal, criou a Terra, os seres humanos, os animais, o universo…
Desta forma, com muita brincadeira, Ruas introduz com seu traço cada uma da dúzia de origens, que por sua vez são individualmente ilustradas por um artista convidado, cada qual com seu próprio traço e estilo – nas últimas páginas, o livro traz foto e minibiografias de cada autor.

O resultado é magnífico e encanta a quem lê. Há os criacionismos mais conhecidos (alguns inclusive mitológicos, como o grego ou o egípcio), os poucos conhecidos no Brasil ainda que as religiões o sejam (como o hindu ou o yorubá – com direito a todos os orixás) e até mesmo aqueles totalmente desconhecidos pela maioria, caso do da China antiga, das Ilhas Banks ou o Eslavo.

Todos, sem exceção, riquíssimos. Deus fez o mundo em sete dias? Os Deuses Maias fizeram os seres humanos de milho porque os primeiros, com outros matérias, não os adoravam? O Deus Qat pescou a Terra do Mar? Os humanos surgiram do suor de um Deus, das lágrimas de outro? Ou de enfeites colocados em malocas por Yeba Goâmu enquanto ele cavalgava sua jiboia gigantesca?

Cada um escolha em que acreditar ou, ainda, concorde com a Teoria Científica, que também foi colocada por Ruas na obra como uma espécie de contraponto aos criacionismo – exposta por ninguém menos que George Lemaitre (autor da Teoria do Big Bang) e Charles Darwin (Teoria da Evolução das Espécies).

E, ao menos no livro, findas as exposições reina a paz (bom seria se na vida real acontecesse o mesmo…).
“É um livro perfeito pra sala de aula, com linguagem didática, acessível e com muito humor”, defende Ruas, com razão. Neste sentido, vale lembrar que não faltou para fazer as histórias o(s)autor(es). No final de De Onde Viemos, o leitor encontra indicação das leituras utilizadas e ainda confere “a ficha” dos profissionais que revisaram os temas de biologia e física da obra.

Vale ressaltar ainda um detalhe bacana que ilustra o bom relacionamento de Ruas com os leitores. Como captou muito mais do que o necessário no Catarse, o autor – que poderia simplesmente enfiar toda a grana no bolso e boa – resolveu dar um upgrade pra quem colaborou. Assim, todo mundo acabou recebendo a obra em capa dura e muitos, muitos brindes.

Entre eles, destaque para um divertido “catecismo”: Gatolicismo, a verdade. Nele, um criacionismo beeeem particular (e hilário), mostrando que quem criou o mundo foram os gatos, com direito aos Dez Mandamentos Gatólicos (Garfield com certeza aprovaria todos).

Voltando a De Onde Viemos, quem não participou do financiamento coletivo pode comprar a obra no site de Um Sábado Qualquer (e aproveitar pra dar uma olhadinha nas outras obras e produtos do autor).

O preço de capa do livro De Onde Viemos é de R$ 59,90. E, independentemente da sua religião, é um pecado não ler !
Os convidados








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