Sem Deslizes: “vilão” de Mônica Laços conta como foi fazer o papel e fala sobre a música que levou os cinemas às gargalhadas

Batman tem o Coringa, Mickey vive às voltas com Bafo de Onça e até a ex-vilã Malévola tem em seu caminho a Rainha Ingrith. É inegável: nada melhor que um bom vilão para valorizar ainda mais os feitos heroicos dos mocinhos. Por isso mesmo, o “Homem do Saco” é fundamental para o sucesso de Turma da Mônica: Laços, o longa-metragem da turminha mais famosa dos quadrinhos brasileiros que lotou os cinemas neste ano de 2019 (e que já tem continuação engatilhada, Mônica Lições, também baseado em Graphic Novel da dupla Lu e Vitor Cafaggi).

Interpretado pelo ator Ravel Cabral – que tem no currículo atuações na série O Mecanismo e em Pacto de Sangue, entre outros – o vilão é responsável por momentos de tensão no filme, mas, até mesmo por ter como foco principal o público infantil, também é responsável por boas risadas. Em especial, no momento em que interpreta a música Deslizes, de Fagner. O próprio cantor se divertiu muito com o trecho, que na opinião dele humanizou o malfeitor, e disse que “o malucão (Ravel) é bom de cena e bom de música também.”

Ravel, claro, não foi o único destaque do filme que estreou em junho e que ainda está em alguns cinemas (e em breve deverá estar disponível na TV a cabo, streaming e muito mais). Rodrigo Santoro – pra variar – mandou bem  como Louco, Paulinho Vilhena ficou um ótimo seu Cebola, há easter eggs para  todos os gostos (com direito até a aparição de Cranicola, da turma do Penadinho) e participações especiais de Mauricio de Sousa como dono da banca de jornal, e do editor das Graphic MSP Sidney Gusman acompanhado dos autores Vitor e Lu, na pele de um florista e clientes.

E, claro, os apaixonantes e ótimos atores mirins Giulia Benite (Mônica), Kevin Vechiatto (Cebolinha), Laura Rauseo (Magali) e Gabriel Moreira (Cascão). Mas toda a aventura do quarteto ocorre justamente por causa do sumiço de Floquinho, ocasionado pelo ótimo Ravel, ou melhor, pelo Homem do Saco.

Na entrevista exclusiva a seguir, o ator fala ao MundoHQ sobre a experiência de entrar no universo de Maurício de Sousa e conta que adoraria voltar ao universo da Turminha no próximo filme. Sim, quem leu a HQ Lições sabe que o Homem do Saco não aparece na continuação, mas até aí, na Laços original o Louco também não aparecia… então, quem sabe?

MundoHQ: Qual a sua relação com os quadrinhos ou desenhos animados da Turma da Mônica? Já conhecia antes, tem um personagem favorito?

Ravel Cabral: Para mim esse trabalho teve um sabor especial, porque toca numa memória muito íntima. Quando eu e meu irmão éramos crianças, meu pai teve a sensibilidade de nos dar de presente uma assinatura mensal dos gibis da Turma da Mônica. Me lembro com muito carinho da sensação de pegar o pacotão de plástico e sentir o formato das revistas lá dentro, guardando com surpresa as muitas horas de fantasia pela frente. Para uma criança desde sempre introspectiva e nada dada aos esportes como eu, aquilo era verdadeira magia que me transportava do meu quarto para outros mundos – o Bairro do Limoeiro!

Especificamente, você já havia lido antes do filme (ou veio a ler) a Graphic Novel Mônica- Laços, que inspirou o longa?

Eu li por ocasião do filme e fiquei deslumbrado com o trabalho do Vitor e da Lu Cafaggi, que conseguiram um delicado equilíbrio ao criar uma obra que é uma atualização da Turma da Mônica, por assim dizer, mas mantém o espírito singelo dos gibis clássicos. A Turma da Mônica, para mim, se trata da infância como ela deveria ser. Acho que este é o grande mérito da Graphic Novel e por isso mesmo serviu de matéria prima para o filme. O Daniel Rezende, diretor do filme, também soube capturar muito bem este sentimento, uma certa nostalgia romântica.

Como surgiu o convite para participar do filme? Houve testes, por exemplo, ou já foi uma definição mais imediata?

Tenho uma história curiosa sobre isso. Fui assistir à pré-estreia de Bingo, também do Daniel Rezende, e achei o filme excelente. Depois da sessão houve uma festinha (não sei se você sabe mas o Daniel é muito bom DJ). Eu não o conhecia, então, em certo momento, resolvi ir até ele me apresentar, dizer que eu admirava muito o trabalho dele. Tomei fôlego e fui em sua direção. No que ele me viu, ele apontou para mim e disse ‘Sou seu fã!’. Eu olhei para os lados, achando q era alguém atrás de mim, mas não. Ele tinha montado o trailer da série Pacto de Sangue (Netflix), na qual eu atuo, e havia me visto. ‘Não, eu vim aqui para dizer que EU sou seu fã!’ respondi. Nos encontramos ainda em outra série e algum tempo depois veio o convite através do Luciano Baldan, produtor de elenco, para fazer o filme. Fiquei muito feliz, claro, e muito lisonjeado.

Você já trabalhou em produções com “vilões” inspirados na vida real, como a série O Mecanismo, da Netflix. Para fazer o vilão de Laços, você se inspirou em alguém, real ou fictício? Como compôs a criação do personagem?

Não, porque desde o começo a ideia não era fazer um vilão propriamente. O Homem do Saco, se você olhar bem, não faz maldade por fazer. Ele é mais um sobrevivente, um cara solitário que não tem escrúpulos em encarar como ‘trabalho’ algo que acabará fazendo mal aos cachorros.

A ideia da música do Fagner foi sua? E como foi fazer aquela cena, que arrancou risadas nas exibições e do próprio Fagner? Aliás, você viu a reação dele à cena? O que achou?

Essa foi uma ideia do Daniel Rezende que, depois que você o conhece um pouco, percebe que é a cara dele! (risos) Eu me diverti horrores, embora ficasse preocupado em fazer a dancinha na medida certa para que ela não ficasse caricata (demais). E sim, fiquei muito feliz em ver a reação do Fagner. Eu uma vez o encontrei numa noite qualquer, num botequinho de nada no bairro Santa Cecília, em São Paulo, isso muitos anos atrás. Ele estava lá, super simples, tranquilo, conversando com os garçons – que por sua vez não conseguiam esconder o entusiasmo de tê-lo ali.

A cena foi gravada de uma única vez ou teve que ser refeita?

Ela foi gravada algumas vezes para ter diversos ângulos de câmera, mas tudo muito tranquilo e divertido.

Como foi trabalhar com as crianças que interpretam Mônica, Cebolinha, Casão e Magali?

As crianças são absolutamente fantásticas. Elas enchiam o set com um espírito muito bonito de amizade e leveza, e souberam encarar as longas horas de gravação com enorme profissionalismo. Eu torço para que eles permaneçam amigos para a vida, uma Turma da vida real.

Você tem alguma preferência por atuar em algum tipo de filme ou série? Prefere personagens cômicos ou sérios, vilões ou mocinhos?

Não acho que tenha preferência propriamente, mas a maneira como o mercado funciona acaba por nos empurrar para um certo tipo de trabalho.

Por fim, quais são seus planos profissionais futuros? Se pintar um convite para a sequência (Mônica – Lições) toparia?

Ah, eu adoraria reencontrar a turma da Mônica, seria uma enorme alegria. Estou me preparando agora para gravar uma série em janeiro, mas ainda não posso revelar informações. Só posso dizer que será muito legal!

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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