Maruru e Hachi, os Gatinhos Companheiros: muita fofura e vida dura nas ruas

Mio e Mao, animação de massinha italiana que passava na TV Globo no final dos anos de 1970, foi provavelmente a primeira dupla de gatos a chamar a atenção de boa parte do mundo em virtude da fofura dos travessos protagonistas. Bem antes deles, no início dos anos de 1960, A turma do Manda-Chuva (Top Cat), da Hanna-Barbera, mostrava de maneira bem-humorada um bando de gatos de rua antropomorfizados que tentava sobreviver da melhor forma às agruras do cotidiano – e à perseguição eterna do Guarda Belo.

O mangá Maruru e Hachi: os Gatinhos Companheiros (Tsureneko: Maruru to Hachi), lançado no Brasil neste ano pela Panini, também traz os conceitos de fofura, humor e vida de gatos de rua, mas de maneira bem diferente. Sim, os gatinhos da história falam entre si e pensam como gente, mas não vestem roupas nem se comportam como seres humanos – anda que partilhem alguns sentimentos comuns.

Eles também têm que se virar para sobreviver na rua e muitas vezes fazem isso arrancando risadas do leitor, mas sem os esquemas de Manda-Chuva, Batatinha, Chuchu e companhia. Quanto ao item fofura, bem, aí não tem pra ninguém.

Lançado em abril de 2022 no Japão, pela mangaká Yuri Sonoda, o gibi está na sexta edição por lá e se tornou queridinho dos fãs, tendo vencido no ano passado o Grande Prêmio (Taishō) na categoria de mangá da 54ª edição do Prêmio da Associação de Cartunistas do Japão (JCA).

A autora, que como uma parte dos quadrinistas japoneses não divulga fotos de si mesma, iniciou a carreira nos anos de 2000 e é reconhecida pelo trabalho sensível e expressivo nas histórias de cotidiano.

Maruru e Hachi é até agora o maior sucesso de Sonoda (que também assina obras como Kitsune-kun to Sensei) e o único lançado no Brasil. A Panini publicou o gibi número 1 dos gatinhos em janeiro e o segundo já está em pré-venda, com previsão de lançamento na segunda quinzena de março.

Dupla inusitada

Branquinho, gentil e bem humorado, Maruru era um filhotinho em um petshop até ser adotado pela família da menina Mei. Ele passou a viver como um gato doméstico, até que um dia a garota esqueceu a janela aberta. Um passarinho pousou por ali e Maruru, praticamente em transe, começou a seguir a ave pelos telhados, muros e ruas da cidade.

Quando finalmente saiu do transe, o bichano não sabia mais como voltar para a casa e foi obrigado a se virar em um ambiente totalmente hostil, em meio a carros passando nas ruas em alta velocidade, seres humanos desconhecidos (e por vezes agressivos) e a dificuldade de arranjar comida, que passa a ter que disputar com outros animais de rua.

Hachi, um gato de rua durão, não quer saber de um “gatinho mimado” no território e inicialmente “dá um corre” na bola de pelos branquinha. Maruru, porém, fica por perto e acaba ajudando Hachi quando ele se mete em uma enrascada com um regador. Grato pelo mimadinho tê-lo salvo, Hachi decide que irá ensinar Maruru a viver nas ruas e os dois vão descobrir que a vida se torna mais simples quando estão juntos – mas nem por isso mais fácil.

Hachi, inclusive, vem de um passado bastante triste, envolvendo a própria ninhada e um bando de corvos famintos… Neste ponto, o talento de Yuri Sonoda se destaca. Se por um lado ela arranca risos do leitor em boa parte da obra, por outro não faltam trechos que enchem os olhos de lágrimas.

Outros gatos e ‘sequestradores’

Diversos outros felinos, cada um com visual e personalidade diferentes, também irão aparecer na história. Entre eles se destacam o velho Roku, um gato agressivo já na casa dos 13, 14 anos;  Coco, uma gatinha invejosa que estava no petshop com Maruru e será levada para a casa de Mei para substituir o sumido; Sabi, um gato de orelha cortada que cuida de Mike, um gatinho novo e delicado que quase perde a vida nas ruas; e Bola de Pelo, um gato preto de pelo longo e embaraçado, que foi para a rua depois que a dona idosa morreu.

Também já deram as caras até o sexto número o misterioso siamês Perti; a gata reprodutora Amelie, obrigada a dar a luz a inúmeras ninhadas por humanos exploradores que comercializavam gatinhos; e os bebês felinos Greco e Coma (Nota da Redação: os nomes podem ganhar outras versões nas edições brasileiras, dependendo das decisões de tradutores e editores).

Há ainda um núcleo de humanos bastante interessante, em especial o liderado pelo “sequestrador de gatos” Yauso. A gataiada de rua acha que o moço é um sujeito terrível que rapta felinos, mas na verdade ele é o mais ativo e apaixonado integrante de um abrigo que recolhe gatos de rua para castração e tratamento.

Além dele trabalham no abrigo uma mulher mais velha (e mãe) Eriko Yanagi, a colegial Uta e, futuramente, o universitário Hino. Na história há ainda um hospital de animais, comandado pela doutora Fuyumi, que traz no rosto uma cicatriz aparentemente causada por arranhões de gato.

Maruru e Hachi: os gatinhos companheiros é uma ótima opção tanto para quem gosta de gatos quanto para quem quer ler um mangá sensível, divertido e envolvente. Cada edição tem 160 páginas e custa R$ 46,90.

NOTA DO CRÍTICO: Vale a pena

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

Comentar

Nós usamos cookies para melhorar sua experiência. Ao continuar, você concorda com nossa Política de Privacidade.